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23/04/2010

A revisão de estudos semelhantes indica um impacto positivo das culturas GM comercializadas

Os benefícios de culturas geneticamente modificadas (GM) continuam a ser disputados, apesar da sua adoção rápida e difundida desde a sua introdução comercial nos Estados Unidos e no Canadá em 1995. No ano passado, 14 milhões de agricultores em 25 países cultivaram culturas GM comercialmente, sendo 90% deles pequenos agricultores em países em desenvolimento (1). Os estudos com os agricultores são uma medida valiosa do impacto das culturas GM. Estes estudos estimam que o desempenho da tecnologia está incorporada nas práticas dos agricultores, dado às restrições de tempo, acesso à informação, diferentes níveis de aversões a riscos e outros fatores. Esta análise resume os resultados de 49 publicações semelhantes revistas, que relatam os estudos feitos com agricultores que comparam rendimentos e outros indicadores de desempenho econômico para os adotantes e não adotantes das culturas GM atualmente comercializadas. Os estudos cobrem culturas GM resistentes a insetos e tolerantes a herbicidas, que são responsáveis por >99% da área mundial de culturas GM (1). Os resultados de 12 países indicam, com poucas exceções, que as culturas GM têm beneficiado os agricultores. Os benefícios, especialmente em termos de aumento nos rendimentos, são muitos para a maioria dos pequenos agricultores dos países em desenvolvimento, que se beneficiaram da grande tecnologia originalmente designada aos agricultores de países industrializados.

Dos 168 resultados que comparam os rendimentos de culturas GM e convencionais, 124 mostram resultados positivos para os adotantes em comparação aos não adotantes, 32 indicam nenhuma diferença e 13 são negativos. De longe, o maior número de resultados comparando os rendimentos de adotantes e não adotantes vem da Índia e dos Estados Unidos, o que é responsável por 26% e 23% dos resultados, respectivamente (Tabela 1). Uma bibliografia comentada dos resultados de rendimento, custos e desempenho econômico, e uma descrição da metodologia usada nesta análise podem ser encontradas nas Tabelas Complementares 1 e 3.

Os resultados de rendimento indicam que os agricultores de países em desenvolvimento estão alcançando maiores aumentos de rendimento do que os agricultores de países desenvolvidos (Tabela 2). Os aumentos médios de rendimento para os países em desenvolvimento variam de 16% para o milho resistente a insetos a 30% para o algodão resistente a insetos, com um aumento de rendimento de 85% observado em um único estudo em milho tolerante a herbicidas. Em média, os agricultores de países desenvolvidos relatam aumentos de rendimento que variam de sem alteração para algodão tolerante a herbicidas a 7% de aumento para soja tolerante a herbicidas e algodão resistente a insetos. A primeira leva de culturas GM a ser comercializada incorporou características que pretendiam melhorar o manejo de pragas e assim reduzir ou eliminar as perdas de danos de insetos ou a competição de ervas daninhas. Estas tecnologias não aumentam o potencial de rendimento, mas podem melhorar substancialmente os rendimentos devido ao melhor manejo de pragas. Onde as tecnologias convencionais de controle de ervas daninhas e de insetos estavam falhando devido aos limites inerentes da eficácia das opções convencionais disponíveis de manejo de pragas ou ao acesso limitado a métodos convencionais de controle, esperava-se que os rendimentos aumentassem. Estas condições podem ser mais comuns em países desenvolvidos.

O caso estudado com mais frequência, algodão GM resistente a insetos (algodão Bacillus thuringiensis (Bt)) na Índia fornece exemplos dos maiores aumentos de rendimento observados, bem como diversos resultados negativos. Os maiores aumentos de rendimento encontrados nesta revisão são relatados para o algodão Bt na Índia, onde os estudos mostram aumentos de até 150%. Dos resultados negativos, seis são para o primeiro ano de comercialização de algodão Bt na Índia e o restante dos resultados negativos é de países desenvolvidos nos primeiros poucos anos de comercialização.



Os resultados mostram a variabilidade dos benefícios de região para região e de ano para ano. Um estudo de agricultores indianos de algodão nas safras de algodão de 2005–2006 até 2007–2008 mostrou que os agricultores de algodão Bt em Gujarat tiverem maiores melhorias de rendimento que suas contrapartes em Maharashtra, com os primeiros obtendo rendimentos 82–150% maiores, enquanto que os últimos obtiveram somente rendimentos 24–40% maiores. Pequenos proprietários de KwaZulu Natal, África do Sul, que foram pesquisados nas safras de 1998–1999 a 2000–2001 relataram um benefício de rendimento associado com algodão Bt entre 56% e 85%, que é atribuído às condições variáveis de clima e à pressão de pragas de ano para ano. É importante notar que a análise das diferenças de rendimento é complicada por diferenças no potencial de rendimento e outras características de germoplasma secundário que podem diferir entre as variedades disponíveis com e sem a característica criada. Por exemplo, as primeiras variedades de algodão Bt aprovadas para comercialização na Índia estiveram na linha regulamentadora por diversos anos, e durante este tempo a melhoria convencional continuava a produzir variedades com rendimentos superiores e resistência a doenças. Estas primeiras variedades oficiais foram conhecidas como sendo suscetíveis a murcharem quando sujeitas a um estresse prematuro de umidade, o que pode ter conduzido aos resultados negativos observados em Andhra Pradesh no primeiro ano de comercialização (2,3). Nos primeiros anos de comercialização, é provável que a tecnologia não estivesse disponível nas variedades secundárias de mais alto rendimento ou nas variedades que são mais adaptáveis às condições de cultivo em todas as áreas.

A rentabilidade é uma medida importante que complementa os dados de rendimento, pois mesmo uma tecnologia que não necessariamente aumenta rendimentos pode melhorar o saldo final de um agricultor se reduzir custos. Em adição aos rendimentos, muitos dos estudos revistos aqui também olham para alterações nos custos e várias medidas de desempenho econômico agrícola. Em todos menos um caso revisto, o custo das sementes (incluindo taxas de tecnologia) aumentou. No entanto, isto foi compensado pela diminuição nos custos de pesticidas, que foram encontrados em todos menos 12 casos.

Olhando por todas as medidas de desempenho econômico, os resultados também são dominantemente positivos. As margens brutas são as mais comumentemente relatadas, mas os custos variáveis incluídos nestes cálculos variam bastante de estudo para estudo. Dos 98 resultados em nosso estudo de literatura semelhante revista que comparam o desempenho econômico das culturas GM com suas contrapartes convencionais, 71 indicam um impacto positivo, 11 são neutros e 16 são negativos (Fig. 1).

Para culturas GM tolerantes a herbicidas, 12 dos 17 resultados mostram um impacto positivo no desempenho econômico, enquanto que 4 resultados não mostram diferença e 1 resultado mostra um impacto negativo. Poderia se esperar mais resultados com impactos positivos de culturas GM tolerantes a herbicidas no desempenho econômico, particularmente porque as culturas GM tolerantes a herbicidas foram mais amplamente adotadas (em 62% da área total de culturas GM em 2009) do que as culturas GM resistentes a insetos no mundo (1). Isto pode ser devido à economia de custos associada com culturas GM tolerantes a herbicidas que não estão incluídas na contabilidade tradicional de custos. Em um estudo de soja tolerante a glifosato nos Estados Unidos, foram usadas técnicas de avaliação não comerciais para estimar os benefícios ‘não pecuniários’ de conveniência, como economias de tempo de manejo e flexibilidade, a $12 ha–1 (ref. 4).

Para culturas GM resistentes a insetos, 59 dos 80 resultados indicam melhoria do desempenho econômico, 7 resultados são neutros e 14 resultados são negativos. Do lado positivo, alguns dos resultados mais notáveis vêm dos agricultores de algodão Bt na África do Sul e na China. Os resultados negativos estão no milho Bt nos Estados Unidos e no algodão Bt na Austrália, China, Colômbia, Índia e África do Sul (embora resultados positivos tenham sido relatados em cada um destes casos também). Alguns dos resultados negativos podem ser explicados pela variação anual na pressão de pragas e nos preços da tecnologia. Além disso, similar às culturas GM tolerantes a herbicidas, os agricultores podem valorizar benefícios intangíveis das culturas GM tolerantes a insetos. Um estudo dos agricultores americanos de milho descobriu que os benefícios não pecuniários (economia de manejo e de tempo de mão-de-obra, segurança humana e ambiental, risco de rendimento reduzido, economia de custo de equipamento e melhor estandabilidade) do milho GM resistente a insetos foram valorizados a $10,32 ha–1 (ref. 5).

Em adição aos indicadores econômicos de desempenho, muitos estudos também olham para indicadores de impacto ambiental das culturas GM, especificamente nas práticas de cultivo para as culturas GM tolerantes a herbicidas e alterações no uso de pesticidas para culturas GM resistentes a insetos e tolerantes a herbicidas (Tabelas Complementares 2 e 3). Para culturas GM tolerantes a herbicidas, dois estudos, para soja na Argentina e nos Estados Unidos, relataram reduções de 25–58% no número de operações de cultivo (6,7). Não há resultados indicando aumento de cultivo para os adotantes de culturas GM tolerantes a herbicidas. Estes resultados reforçam observações de uma adoção mais ampla de práticas de cultura de conservação desde a introdução de culturas GM tolerantes a herbicidas8–10.

Para as culturas resistentes a insetos, 45 resultados mostram reduções na quantidade de inseticida ou no número de aplicações de inseticidas, ou ambos, usados em culturas Bt em comparação a culturas convencionais na Argentina, Austrália, China, Índia e nos Estados Unidos. As reduções variam de 14% a 75% em termos de quantidade de ingrediente ativo e de 14% a 76% para o número de aplicações de inseticidas. Um pequeno estudo de amostragem na África do Sul encontrou uma redução no número de pulverizações de inseticidas em um dos dois anos estudados e uma diferença insignificante no outro ano. Não há resultados que indicam um aumento no uso de inseticidas para os adotantes de culturas GM resistentes a insetos.



As medidas de alterações acima no uso de inseticidas são imperfeitas, pois não indicam a toxicidade relativa dos inseticidas usados e, portanto, a saúde humana e os impactos ambientais associados com os diferentes inseticidas que podem ser usados nas culturas Bt e nas convencionais. Os pesquisadores usaram várias abordagens para dar mais percepção das implicações destas reduções no uso de inseticidas. Na Argentina, um estudo mostrou que a quantidade de inseticida em todas as classes de toxicidade reduziu no Bt, em comparação com parcelas de algodão convencional (11). Três anos de dados de estudo para algodão Bt na África do Sul foram combinados com avaliações de toxicidade relativa e persistência no cálculo de um índice biocida, o que mostrou valores substancialmente menores para inseticidas usados em Bt, em comparação com algodão convencional (12). Os resultados de estudos na China indicam uma redução no percentual de agricultores que relataram dores de cabeça, náuseas, dores na pele ou problemas digestivos após a aplicação de pesticidas associada com a adoção de algodão Bt (13), embora alguns dos benefícios à saúde observados nos anos anteriores à adoção podem ter sido perdidos devido ao aumento na pulverização para pragas secundárias (14). Os pesquisadores na África do Sul mostraram uma relação inversa entre o número de admissões hospitalares locais classificadas como relacionadas ao cultivo de algodão e a adoção de algodão Bt (15).

Poucos estudos capturaram alterações no uso de herbicidas com culturas GM tolerantes a herbicidas, talvez porque o impacto das culturas GM tolerantes a herbicidas tem sido uma grande mudança entre os herbicidas aplicados em diferentes proporções e, portanto, a alteração na quantidade de herbicida usado seja um indicador ruim do impacto ambiental. Três estudos relatam mudanças no uso de herbicidas, mostrando mudanças na proporção, de uma redução de 38% a um aumento de 108% na quantidade total de herbicida usado, e uma mudança insignificante no número de aplicações de herbicidas (6,16,17). O impacto ambiental destas mudanças é entendido melhor ao se olhar para as características ambientais dos herbicidas. Dois dos estudos acima estenderam suas análises aplicando indicadores ambientais para as mudanças observadas no uso de herbicidas. O potencial agregado de lixiviação do pesticida para o algodão GM tolerante a herbicidas na Carolina do Norte foi 25% menor do que no algodão convencional16. As reduções de 83% e 100% no uso de herbicidas nas classes de toxicidade II e III, respectivamente, foram encontradas em soja GM tolerante a herbicidas na Argentina, com um aumento correspondente de 248% no uso da classe menos tóxica IV de herbicidas (6). Alguns dos benefícios ambientais que vieram com o uso de herbicidas mais ambientalmente benignos podem ser perdidos com o desenvolvimento de ervas daninhas resistentes a glifosato, embora existam poucos dados agora sobre os quais possa se tirar conclusões.

Diversos estudos endereçam a questão se as culturas GM estão beneficiando os pequenos agricultores de países em desenvolvimento através de comparações diretas de resultados para agricultores com propriedades de diferentes tamanhos ou documentando os impactos em pequenas propriedades. Quatro estudos da China, Colômbia e África do Sul fazem comparações diretas de rendimentos, margens brutas ou ambos para agricultores com operações de diferentes tamanhos. Os estudos indicam que os agricultores menores tiveram maiores benefícios na África do Sul e na China (15,18,19). Os resultados da Colômbia foram mistos (20). Cinco estudos mostraram melhorias no desempenho econômico para agricultores com <10 ha na China, Colômbia, México, Índia e África do Sul (13,20,23). Uma explicação para os rendimentos favoráveis para pequenos proprietários é a natureza de redução de risco da tecnologia, enquanto que os não adotantes com propriedades razoáveis são particularmente vulneráveis, pois os rendimentos flutuam de ano para ano (15).

As evidências acumuladas de estudos com agricultores sobre o desempenho de culturas GM ajudam a explicar a ampla popularidade da tecnologia em diversas regiões do mundo. Os estudos aqui revistos refletem a grande variedade de condições em termos ambientais, pressão de pragas, práticas agrícolas, contexto social, direitos intelectuais de propriedade e acordos institucionais. Dado a esta diversidade de condições, é notável que os resultados sejam tão consistentemente positivos. Mesmo assim, estes resultados cobrem menos da metade dos países que atualmente cultivam culturas GM e são escassos para algumas tecnologias já amplamente adotadas, como o milho e a canola GM tolerantes a herbicidas. Além disso, as culturas GM têm sido cultivadas por somente 14 anos — menos para os países que não estavam entre os primeiros adotantes — um período relativamente curto para avaliar o impacto a longo prazo de qualquer tecnologia. Em alguns casos, os resultados refletem uma única safra, o que não é uma base adequada para julgar a sustentabilidade do impacto da tecnologia. Contudo, a janela da oportunidade para a comparação direta de rendimentos dos adotantes e não adotantes fechou onde a taxas de adoção são muito altas e agora serão necessários diferentes métodos de avaliação de impacto.



Percentual de Resultados
Figura 1. Resultados por direção de mudança no desempenho econômico (GM – convencional). Um teste 2 mostra uma diferença significante na proporção de resultados positivos para países desenvolvidos e em desenvolvimento (2= 0,68, df = 1, P = 0,.41).

A avaliação dos impactos de características embutidas será de interesse futuro, incorporando uma combinação de características, o que já representa mais de 28% da área mundial total de culturas GM (1), mas que foi estudado por somente dois estudos. A avaliação das experiências dos agricultores com tecnologias de culturas GM criadas especificamente também será de interesse, para endereçar as limitações mais urgentes de agricultores de países em desenvolvimento, como as tecnologias sendo desenvolvidas na mandioca, feijão-de-corda e arroz, à medida que alcancem o estágio de comercialização.

Obs.: Informações complementares estão disponíveis no site da “Nature Biotechnology”.

INTERESSES FINANCEIROS COMPETITIVOS
O autor declara interesses financeiros competitivos: os detalhes acompanham a versão completa HTML do folheto em www.nature.com/naturebiotechnology/.

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Autor: Janet E. Carpenter
E-mail: janet.e.carpenter@gmail.com

Fonte: http://www.nature.com/nbt/index.html






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