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Artigos

01/10/2010

Milho, será que agora vai?

Definitivamente uma nova situação se estabeleceu nos últimos meses no que diz respeito ao milho nos mercados mundiais. A partir da quebra da safra de trigo nos países da antiga União Soviética, que afetou o suprimento de cereais para a manutenção do rebanho animal nestes países, e das medidas tomadas para enfrentar esta situação (principalmente o anúncio da suspensão das exportações de trigo pela Rússia como forma de proteger o seu mercado interno), a incerteza se espalhou para outros países dependentes de importações de cereais, seja para alimentação humana ou animal.

As contínuas reavaliações pelo USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) da quantidade de milho a ser colhida na presente safra contribuíram para aquecer mais o mercado. Embora a última revisão ainda aponte para uma nova safra recorde de milho nos EUA, as previsões de crescimento da demanda interna para a produção de etanol e as possibilidades de aumento das exportações conduzem à uma estimativa da relação estoque final/consumo interno para o ano agrícola 2010/2011, que será o menor dos últimos 15 anos (com os estoques representando cerca de 10% do consumo dos EUA). É claro que, embora a real ameaça representada por este nível de estoques esteja na dependência das perspectivas para a próxima safra (2011/2012), o baixo nível dos estoques representa uma grande dose de incerteza sobre a situação de abastecimento de milho no próximo ano e, consequentemente, afeta os preços futuros do milho (que são resultantes da avaliação individual dos consumidores e produtores do cenário futuro do mercado deste cereal).

Um novo indicativo de problemas futuros neste mercado é o comportamento da China no mercado mundial de milho. Embora tenha investido no aumento da produção interna, assim como na manutenção de um estoque de segurança em níveis superiores ao de outros países (a China hoje detém 38% dos estoques mundiais de milho, 43% dos estoques de arroz e 29% dos estoques de trigo), a tão esperada transformação da China em importador líquido de milho aparentemente está se concretizando. As importações de milho por este país foram de cerca de 3 milhões de toneladas e os prognósticos para o ano agrícola 2010/2011 são semelhantes. Nada que se compare ao apetite chinês pela soja (importações de cerca de 50 milhões de toneladas), mas é um indício de que as possibilidades de aumento da produção interna estejam se estreitando.

Para finalizar, com a nova situação de crise na produção dos países da antiga União Soviética, a Europa, que já estava direcionando as suas importações para países do Leste Europeu, terá que buscar novos fornecedores (sobraram os EUA, a Argentina e o Brasil).

Em resumo, a incerteza no mercado de milho cresceu e os preços refletindo esta situação aumentaram na mesma proporção. Os preços internacionais do milho subiram de forma consistente, principalmente a partir dos últimos dias do mês de julho, saindo da faixa US$ 3,50 – US$ 3,75 por bushel, onde se situavam nos últimos seis meses, e atingindo níveis ao redor de US$ 5,00 nos últimos dias.


Situação Interna

Com a safra brasileira já fechada, agora resta o problema da comercialização e o exercício das previsões sobre o comportamento dos agricultores em relação ao plantio da safra 2010/2011.

Estes dois aspectos, que aparentemente já estavam relativamente definidos, com as alterações recentes no mercado mundial necessitam ser redefinidos. No lado da comercialização, os leilões do governo federal sustentaram os preços por ocasião da colheita da safrinha (que, apesar das perdas verificadas em Mato Grosso, ainda foi uma grande safra). As perspectivas de repetição das condições do ano de 2009 aparentemente foram afastadas por este resto de 2010. Os preços do milho no mercado interno, nas principais praças, já estão superiores aos verificados nos meses correspondentes do ano passado e mostram um crescimento constante a partir do fim de julho.

Esta situação dos preços reflete tanto as ações do governo com seus leilões (não por outro motivo o Mato Grosso é hoje o maior exportador de milho do Brasil, com cerca de 800 mil toneladas em agosto de 2010) aliado à nova situação do mercado internacional (que se refletiu em preços em níveis que ajudam a viabilizar as exportações e trouxe de volta antigos países importadores, como Portugal e Espanha) e ao maior consumo interno do milho (principalmente no estado de Mato Grosso, o que contribui para diminuir os estoques e reduzir as pressões sobre os preços).

As exportações que estavam patinando até o mês de julho, apresentaram a primeira reação em agosto (cerca de 1,2 milhão de toneladas) e apresentam um desempenho animador no mês de setembro, devendo inclusive superar os valores de agosto. Neste andar da carruagem, aparentemente está assegurada a realização da previsão da Conab de 8,5 milhões de toneladas de milho exportadas. O que passar disto já é lucro. Porém, já existem analistas dizendo que o país pode bater o recorde histórico de exportação, caso o desempenho dos dois últimos meses seja mantido.

A dúvida agora é se estas novas condições ainda poderão influenciar o plantio da próxima safra. Antes desta situação, verificava-se um grande pessimismo em relação ao milho, com fortes indicações de mais uma redução na área plantada na safra de verão. Previsões iniciais da Emater-RS, estado onde o plantio inicia-se mais cedo, indicam uma redução para 4,64 milhões de toneladas na produção esperada para esta safra de 2010/2011 (segundo a Conab, foram colhidas 5,6 milhões de toneladas de milho no Rio Grande do Sul na safra 2009/2010). Esta informação ainda é muito preliminar, pois inclui a redução na área e possíveis efeitos negativos do La Niña (com previsões de irregularidades na precipitação, principalmente na região Sul do Brasil).

Nos outros estados do Centro-Sul do Brasil, estas novas condições ainda podem exercer algum efeito sobre a decisão de plantio, em virtude da época de semeadura mais tardia e também pelo atraso no início das chuvas no Sudeste e Centro-Oeste. Outro fator relevante está nos preços dos insumos, que mostram certa tendência de redução, o que é muito importante no caso do milho, pois representam itens importantes no desembolso monetário dos agricultores na implantação das lavouras.

O abastecimento de milho para o próximo ano (e também os preços em 2011) estão na dependência de uma série de fatores. Podem ser citados: a quantidade de milho que poderá ser exportada (o que afetará a disponibilidade de milho estocada para o próximo ano), a decisão dos agricultores em relação à área a ser plantada (principalmente na safra de verão) e os efeitos do La Niña. Este conjunto de fatores vai afetar principalmente as regiões Sudeste e Sul (mais o estado de Goiás), que são as principais regiões consumidoras, onde os preços reagem fortemente no caso de alguma redução na produção regional.

No caso da safrinha, o fato relevante, até agora, é o atraso no plantio da soja no Centro-Oeste, que poderá afetar a área disponível para plantio do milho nas épocas mais favoráveis. Estas condições irão afetar a produção de milho na região que, pelas suas dificuldades de logística de escoamento da produção, sofre com qualquer excesso de produção deprimindo os preços e requerendo ações de manutenção dos preços mínimos.

Com todas estas indefinições, a súbita mudança nas condições de mercado pelo menos se apresentou como uma novidade que pode contribuir para resolver a situação do milho no mercado interno brasileiro. Vamos ver se desta vez vai. ​

Autor:
João Carlos Garcia e Jason de Oliveira Duarte
Pesquisadores da área de economia agrícola da Embrapa Milho e Sorgo