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Artigos

21/12/2010

Por que perdemos qualidade na silagem?

As últimas safras, com algumas exceções, têm sido bastante favoráveis aos produtores de silagem de milho. Os custos de implantação e manejo das lavouras foram reduzidos, alguns insumos baixaram de preço e parte dos defensivos está sendo substituída por híbridos mais tolerantes às pragas e doenças, que associados a uma situação climática favorável permitiram maiores produtividades nas lavouras.

No entanto, nesse mesmo cenário, muitos produtores irão produzir silagem de baixa qualidade e com custo elevado. São aqueles que relegam a segundo plano a lavoura de milho destinada à ensilagem usando sementes de baixa tecnologia, menos adubo que o necessário e pouca atenção aos tratos culturais.

O produtor tem que estar consciente de que a chance de seu sucesso deve-se a seu planejamento. E a redução de perdas em cada etapa do processo, do plantio ao cocho, é fator determinante na sua eficiência e rentabilidade.

O planejamento começa com a escolha do híbrido. Antes de tudo, o milho escolhido para produção de silagem deve ter boa estabilidade agronômica, com maior tolerância às pragas e às doenças, de modo que possa expressar as características produtivas desejadas como alta produção de forragem (Matéria Seca - MS) com grande participação de grãos no seu conteúdo. Independente da finalidade da lavoura de milho, silagem ou grão, o produtor dever seguir as recomendações agronômicas (posicionamento) que levem em conta as peculiaridades da sua região (altitude, solo, clima, etc) e do período de cultivo (verão ou safrinha).

Estratégias como a adoção do Sistema de Combinação de Híbridos (SCH) devem ser feitas de forma a combinar características como potencial produtivo, precocidade e defensividade de forma complementar, além de contribuir, em muito, para uma maior janela de corte no período de colheita.

Os resultados de produtividade são dependentes da interação do ambiente e do manejo adotado. Cabe lembrar que os novos adventos da biotecnologia como milho Bt e o uso de técnicas de marcadores moleculares para identificar genes que conferem tolerância a determinadas pragas e doenças no milho, resultam em maior produtividade porque reduzem perdas na lavoura.

A época adequada de plantio do milho interfere significativamente na produtividade. Mesmo que, em algumas situações, esse atraso não dependa exclusivamente do produtor por razões diversas, e que não tenha nenhum efeito sobre os custos de produção, a desatenção quanto ao período ideal de plantio pode resultar em perdas significativas de produtividade da lavoura e da qualidade da silagem.

Trabalhos de pesquisa realizados pela Embrapa no Brasil Central mostram que, dependendo do híbrido, atraso do plantio a partir da época mais adequada pode resultar em redução no rendimento em até 30 kg de milho por hectare por dia. Resultados de pesquisas realizadas pela Fundação ABC, no estado do Paraná, mostram sensível redução da qualidade da silagem de milho (teor de NDT) em função do período inadequado de plantio (Figura 1).

 

A antecipação de corte da lavoura é, sem dúvida, o fator de maior representatividade na perda de qualidade e aumento de custos na produção de silagem de milho. O ponto ideal de colheita é quando a planta acumula a maior quantidade de matéria seca (MS) de melhor qualidade nutricional, geralmente quando os grãos atingem o estádio de farináceo-duro (50% da linha do leite) e a planta pode ter teores de MS variando entre 32 e 36%, dependendo da sanidade de colmos e folhas no momento da ensilagem. A antecipação do corte eleva, consideravelmente, os custos da silagem produzida em virtude de se estar armazenando e transportando mais água para o silo, menos nutrientes (energia) e perder parte da qualidade na forma de efluente (“choro da silagem”).
 
Em trabalhos realizados no ano de 2009, em parceria com Fundação ABC, constatamos que a antecipação do corte reduz sensivelmente a participação de grãos na planta e, consequentemente, a qualidade da silagem produzida. Quando colhidas com teor matéria seca (MS) de 25% as lavouras apresentavam produtividade equivalente de grãos próximo de 6.000 kg/ha, enquanto que para o corte realizado com teor de MS de 35% a produtividade equivalente de grãos era em torno de 13.000 kg/ha (Figura 2).

 


 

A antecipação de corte do milho, em função da menor quantidade de grãos, eleva os teores de fibra e reduz sensivelmente os teores de energia (NDT) da silagem. Do ponto de vista econômico a desvantagem para o produtor é que os menores teores de energia da silagem demandam maiores quantidades de ração concentrada, o que eleva de maneira significativa os custos de produção. Boa parte dos produtores e técnicos não percebem essas perdas porque não investem em uma simples análise bromatológica da sua silagem. Costumam fazer a dieta de seus animais, usando “valores médios” de qualidade de silagem.

Vamos tomar como exemplo uma propriedade que tem cerca 70 vacas em lactação durante o ano, com produtividade média de leite em torno de 30 litros/vaca/dia. Na dieta dos animais o teor de energia (NDT) considerado para a silagem de milho era de 66% e as vacas consumiam, em quilos de matéria seca, cerca de 8 kg de silagem de milho e 8 kg de milho moído, além de outros alimentos. Feita uma análise bromatológica constatou-se que a silagem apresentava, na realidade, 69,5% de NDT. A melhor qualidade da silagem de milho permitiu reduzir 1 kg MS de milho moído e aumentar em 1 kg de MS de silagem de milho na dieta das vacas. Com custos de R$ 0,19/kg de MS da silagem e de R$ 0,29/kg de MS de milho moído (R$ 15,00/sc) teve-se uma redução de R$ 0,10/vaca/dia (ou R$ 7,00 para as 70 vacas). Em um ano a economia resultará em algo próximo de R$ R$ 2.555,00 (R$ 7,00 x 365 d)! O custo com a análise bromatológica foi de R$ 148,00. As informações foram levantas em trabalho de assessoria, realizado na região Sul pela zootecnista Adriane Kruppa.

Um dos motivos que levam o produtor, principalmente o pequeno, a antecipar o corte do milho é a pouca disponibilidade de maquinário no momento ideal de corte. Esses produtores dependem da prestação de serviços por terceiros, principalmente de prefeituras ou patrulhas mecânicas, onde se tem, no geral, péssima manutenção das ensiladeiras - afiação de facas e regulagem - e operadores pouco informados.

Num projeto realizado em parceria com o departamento técnico da Cooperativa Santa Clara, no Rio Grande do Sul, que tem na grande maioria dos seus cooperados pequenos produtores de leite, foi avaliada a qualidade da silagem de milho em 70 propriedades (consideradas representativas para os mais de 4.000 cooperados). Constatou-se que 62% dos produtores dependiam de serviços terceirizados para o corte da silagem, sendo mais de 80% desse serviço realizado por prefeituras da região; 21% dos produtores tinham ensiladeiras em sociedade e 17% possuíam máquinas próprias. A qualidade do corte foi avaliada por meio do Separador de Partículas Penn State (SPPS), desenvolvida pela equipe da Pennsylvania State University, dos EUA (Figura 3). O diâmetro das peneiras são apresentados na tabela 1.

 



 

 

 

 
Observando-se a retenção de partículas na primeira peneira pôde-se verificar que apenas 24% das amostras se encontravam na faixa ideal. Cerca de 4% estavam muito picadas e mais de 70% estavam acima do ideal (Figura 4). Maiores tamanhos de partícula são fortes indicativos que haverá sobras no cocho; que boa parte dos grãos não serão processados (quebrados) e, por isso, pouco aproveitados pelos animais (foto); e que as vacas terão menor consumo de fibra e possíveis alterações no ambiente ruminal (ex. acidose).

  

  

 

A má qualidade de corte dificulta a compactação e compromete severamente o processo de fermentação e a conservação da silagem. Enquanto houver ar dentro do silo o processo de respiração na forragem picada vai ser intenso, havendo consumo de energia para geração de calor (aquecimento da silagem) e redução na sua qualidade nutricional com menores níveis de energia e proteína disponível.

A maneira mais efetiva de se reduzir perdas, minimizar custos e aumentar rentabilidade no uso de silagem de milho é entender que as ações, da lavoura ao cocho, devem ser integradas.

Participantes da cadeia produtiva (cooperativas, laticínios, associações de produtores, etc) devem promover ações no sentido de levantar informações da verdadeira qualidade das silagens produzidas nas suas áreas de atuação. Antes de copiar o “modelo” dos outros, devemos conhecer nossos próprios problemas. Fica mais fácil o produtor assimilar informações quando ele sabe onde “mora” o problema.

Com base nestas informações é possível desenvolver ações no sentido de resolver os problemas levantados. Pode-se destacar:
- Dias de campo sobre a cultura de milho integrada a informações e dinâmicas sobre as etapas que envolvem o processo de produção de silagem. Toda a tecnologia viável para o aumento de produtividade deve ser empregada, seja para se colher grão ou forragem.
- Uma boa silagem só pode vir de uma boa lavoura.
- Capacitar o produtor de modo que ele entenda a importância de cada etapa do processo de ensilagem, identificando as possíveis perdas e as maneiras de evitá-las.
- Fóruns de discussão com técnicos sobre a importância da qualidade da silagem de milho e suas implicações na redução de custo na dieta, benefícios na nutrição da vaca e rentabilidade da atividade.
- Capacitação de operadores de máquinas (associações, prefeituras e produtores) por meio de parceria com empresas da área de colhedoras de forragem.
- Reuniões e eventos técnicos com produtores e técnicos para apresentação de resultados das ações propostas.​

Autor:
João Ricardo Alves Pereira
Professor Adjunto do Depto. de Zootecnia – Curso de Zootecnia UEPG/Castro - PR
Fonte: