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Artigos

08/07/2013

Mercado de grãos: uma retrospectiva dos últimos 40 anos

Nos últimos 40 anos, os mercados de milho e soja sofreram grande evolução tanto no âmbito doméstico quanto no âmbito internacional. Como característica dos mercados de commodities, a demanda foi a grande alavanca destes mercados. O crescimento populacional, aliado ao incremento da renda, propiciou crescimento de 179% no consumo mundial de milho nos últimos 40 anos, enquanto na soja o crescimento observado foi de 460% no mesmo período.

Para suportar o crescimento da demanda, a tecnologia da produção teve papel significativo neste processo. Apesar do crescimento da área plantada com grãos ao longo das últimas quatro décadas, a produtividade média por hectare cresceu a passos mais largos do que a área cultivada. Nos últimos 40 anos, a área plantada com milho no mundo registrou crescimento de 51%, enquanto a área cultivada com soja foi elevada em 248%.

No Brasil o movimento foi semelhante. Nos últimos 40 anos, a área cultivada com milho no Brasil cresceu 52%, enquanto a demanda teve um salto de 283,3%. Claramente, o ganho de produtividade teve papel fundamental para reduzir a pressão sobre a área. Na safra 1972/73, a produtividade média alcançada de milho em nível de Brasil era de apenas 1.424 kg/hectare. Já no ano agrícola 2011/12, estima-se uma produtividade média de 4.071 kg/hectare. Para este cálculo leva-se em conta as áreas e produção das 1ª e 2ª safras.

No caso específico da soja, também foi possível observar ganhos de produtividade, porém, em níveis bem menores do que em relação ao milho. A produtividade média da soja no Brasil saltou de 1.748 kg/hectare na safra 1976/77 (início da série histórica estatística no país) para a estimativa de 2.688 kg/hectare na safra 2011/12.

Ao longo das últimas quatro décadas, o que se observa claramente é a importância que o Brasil passou a ter no mercado mundial de milho e soja, com maior destaque para a oleaginosa. Atualmente, o Brasil responde por cerca de 40% da produção mundial de soja, devendo se destacar como o maior exportador global do grão na campanha agrícola 2011/12.

A inserção do milho no mercado global é muito mais recente do que da soja, a qual já figura no mercado internacional desde a década de 70. O Brasil passou a ter importância no mercado mundial de milho nos anos 2000, após a desvalorização do Real iniciada em 1999. Antes deste período, o Brasil era praticamente autossuficiente no milho, importando o produto em anos de déficit de produção, mas raramente obtinha grandes excedentes exportáveis.

Com o advento da 2ª safra de milho, a qual passou a ter maior importância ano após ano, o cenário de produção foi modificado. A safra de inverno começou a registrar tanto aumento da área plantada quanto ganhos de produtividade. Neste contexto, o Brasil passou a produzir excedentes de produção e, atualmente, figura entre os três maiores exportadores mundiais de milho.
 
As mudanças observadas nos mercados de milho e soja, ao longo das últimas décadas, foram determinadas por alguns choques, seja do ponto de vista macroeconômico seja do ponto de vista de políticas públicas.
 
 
Realizando uma retrospectiva, é possível destacar os principais pontos destas mudanças.

Década de 70: esta década foi marcada por fortes investimentos governamentais na agricultura, uma vez que o governo tinha como objetivo promover a modernização agrícola do país e o crescimento da produtividade. Praticamente toda a necessidade do financiamento ao setor era provida pelo Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR), que concedia taxas de juros subsidiadas aos produtores rurais. Destaca-se também neste período o importante papel desempenhado pela Embrapa que, entre tantas conquistas, permitiu a expansão da agricultura para a região Centro-Oeste do Brasil.

Década de 80: conhecida como a década perdida, o Brasil atravessa momentos políticos e econômicos bastante complicados. Há baixa liquidez no financiamento internacional após o mundo vivenciar o segundo choque do petróleo em 1979. Consequentemente há aumento das taxas de juros internacionais num momento em que o endividamento externo brasileiro era crescente. Com uma situação fiscal deteriorada, o elevado déficit público do Brasil ocasionava pressões inflacionárias. A necessidade de realizar ajuste fiscal resultou em cortes profundos nos recursos públicos destinados à agricultura. Em virtude dos ganhos de produtividade alcançados na década anterior, a agricultura brasileira ainda consegue ter desempenho satisfatório na década de 80 em um momento no qual há queda expressiva na atividade industrial. Se não fosse a agricultura, certamente a crise na década de 80 teria sido muito mais acentuada.

Década de 90: o Brasil alcança sua principal conquista econômica, que é o controle inflacionário. A estabilidade monetária, com a implantação do Real em 1994, ocasiona choques de competitividade na agricultura brasileira. A intensificação da abertura comercial, iniciada no governo Fernando Collor de Mello, aliado a uma moeda valorizada - o Real manteve-se fortemente valorizado de 1994 a 1998 - tornava as importações de determinados produtos agrícolas - a exemplo de milho e trigo - mais competitivo do que a aquisição destes produtos no mercado doméstico. Isto exigiria, portanto, ganhos produtivos por parte do Brasil para enfrentar o aumento da competição. Por outro lado, a valorização da taxa de câmbio permitiu a aquisição de insumos agrícolas (boa parte é importada) a preços mais competitivos, elevando, portanto, a intensificação do uso destes produtos na atividade agrícola, o que permitiu ganhos expressivos de produtividade. O setor privado passou a se destacar como o principal financiador da atividade agrícola, ajudando a desenvolver ferramentas de financiamento como a Cédula de Produto Rural (CPR), soja verde e operações de troca.

Década de 2000: países emergentes começam a ter no cenário econômico global e pelas crises de dívidas nos países desenvolvidos. A China se destaca como a segunda maior economia do mundo e o Brasil ganha status de InvestmentGrade com sua política macroeconômica estável e considerada segura. A desvalorização do Real, promovida em 1999, impulsiona as exportações brasileiras de grãos e carnes nos anos 2000 e o país figura claramente como um dos maiores exportadores mundiais de commodities. A evolução econômica dos países emergentes alavanca o consumo de alimentos e os preços das commodities agrícolas atingem níveis recordes, impulsionando ainda mais as vendas externas do Brasil. Há mudanças geográficas na produção. A cana se expande para novas fronteiras agrícolas, como o Triângulo Mineiro e o sudoeste de Goiás, o algodão renasce em um ambiente de alta escala e altamente produtivo na região Centro-Oeste e os grãos começam a conquistar as fronteiras do Norte e Nordeste.

De alguma forma, as mudanças observadas no passado permitiram a evolução da agricultura brasileira. Em alguns momentos, estas evoluções ocorreram por incentivos e, em outros momentos, por necessidade. Os recursos naturais do Brasil, aliado à disponibilidade de tecnologia, tornam o futuro do agronegócio brasileiro muito promissor. O país é um dos únicos no mundo que ainda possuem estoques expressivos de terras e o ambiente macroeconômico atual torna a esfera de investimento bastante atrativa. É verdade que ainda temos muitos desafios a serem enfrentados e há muito trabalho a ser feito. Porém, a competitividade natural do Brasil na agricultura, por si só, já torna o setor destaque global.
Autor:
Leonardo Sologuren
Diretor da Clarivi Consultoria
Engenheiro-agrônomo, Mestre em Economia e Sócio- diretor da Clarivi Consultoria
Fonte: