Skip Ribbon Commands
Skip to main content
Navigate Up
Sign In
Você está em: Skip Navigation LinksInício / Media Center / Artigos

Artigos

08/07/2013

A evolução da genética e da tecnologia de cultivo de milho no Sul do Brasil

O milho é uma das suas principais culturas agrícolas desde os tempos anteriores ao descobrimento do Brasil, quando já fazia parte da dieta dos seus habitantes.

Com a chegada dos colonos europeus, o milho continuou a ser parte da alimentação humana e também começou a ser utilizado na alimentação de animais domésticos trazidos pelos imigrantes. O intenso uso deste cereal na produção animal é um dos pilares do sucesso desta cultura, especialmente nas cadeias alimentícias de suínos, aves e gado leiteiro.

Com o passar dos anos, em especial no século passado, as técnicas agrícolas foram aperfeiçoadas em decorrência dos avanços científicos nas áreas de fertilizantes, agroquímicos e máquinas. Em paralelo, os estudos de genética vegetal propiciaram a melhoria da produtividade de novos genótipos e o entendimento das melhores combinações gênicas levou à seleção de genótipos com rendimento de grãos mais elevados.

A busca de melhores produtividades fez com que se originassem, ao longo do tempo, grandes mudanças na genética e no manejo da lavoura.

Na genética do milho:
  1. No início do século XX - uso de populações crioulas já bem-definidas, resultantes da adaptação local e da seleção de tipos desejados. Primeiras iniciativas de introdução de material genético.
  2. Décadas de 40 e 50 - forte desenvolvimento da pesquisa e o surgimento de sintéticos, substituindo as antigas populações.
  3. Décadas de 50 e 60 - chegada dos híbridos duplos de ciclo longo, adaptados à lavoura do tipo colonial e mecanizada, com bom potencial de rendimento e uniformidade.
  4. Década de 70 - entrada de híbridos duplos de ciclo médio, melhor adaptados à lavoura mecanizada e ao sistema de sucessão/rotação cultural.
  5. Década de 80 - híbridos duplos e triplos de ciclo curto com muito bom potencial de resposta a melhorias da fertilidade do solo e ao sistema de plantio direto.
  6. Década de 90 - híbridos triplos e simples de alto rendimento para lavouras acima de 10 ton/ha.
  7. Início do século XXI - o começo da utilização da transgenia trazendo híbridos com caracteres avançados para o controle de pragas em geral e com grande impacto no manejo.
 

No manejo do milho: 
  1. Início do século XX - a lavoura do tipo colonial com baixa densidade e uso de consórcios em áreas com fertilidade natural de solo. Pouca utilização de insumos.
  2. Décadas de 30 e 40 - abertura de áreas com fertilidade natural de solo (regiões coloniais), melhoria das técnicas de cultivo e início do uso de insumos.
  3. Décadas de 50 e 60 - utilização comum de adubos e início da lavoura mecanizada. Início da Operação Tatu e o programa de melhoria de fertilidade do solo.
  4. Década de 70 - melhoria no manejo do solo – Plantio Direto - associado ao maior uso de adubos e adoção de maior densidade de semeadura. Início do uso de máquinas de Plantio Direto.
  5. Década de 80 - uso de maior adubação nitrogenada, melhoria da eficiência de herbicidas, início da diminuição do espaçamento entre linhas e melhoria na eficiência de máquinas de semeadura e colheita.
  6. Década de 90 - uso da irrigação, aumento do uso de fertilizantes e menor espaçamento entre linhas. Melhoria da sanidade da lavoura e alta eficiência de máquinas em operações agrícolas.
  7. Início do século XXI - monitoramento na precisão das operações agrícolas para obter a maior vantagem da interação do manejo com a genética dos novos híbridos.
 

O teosinto e a origem do milho
A planta de milho (Zea mays) é originária das Américas, tendo sido domesticada pelos índios na região onde hoje é situado o México. Provavelmente a seleção de plantas se deu sobre o teosinto (Zea parviglumis), espécie ainda encontrada naquela região. Ela é uma gramínea com muitos afilhos e as inflorescências (espigas) são pequenas e encontram-se nos nós superiores dos colmos. Na forma selvagem, produz pequena quantidade de grãos e, por este motivo, é hoje cultivada para a obtenção de forragem verde.
 

Séculos XVIII e XIX
Milho farináceo branco açoriano
 
Os colonos açorianos que se instalaram no litoral do Sul do Brasil – Santa Catarina e Rio Grande do Sul - em meados do século XVIII trouxeram consigo uma população de milho com porte baixo (± 210 cm), baixa inserção de espigas (± 90 cm), resistente ao acamamento, boa sanidade e bom desenvolvimento de raízes, com ciclo de aproximadamente 75 dias até o pendoamento. Os grãos são semidentados, de aparência cerosa, coloração branca, tipo farináceo, granulação da farinha similar ao trigo, alto rendimento de farinha e sabor adocicado, quando em milho verde.

 
Séculos XIX e XX
As populações crioulas de milho e o consórcio com outras culturas

Com o início da agricultura colonial ocorreram cruzamentos - de certa forma involuntária - com os genótipos primitivos que permaneceram por longos períodos isolados em regiões. A seleção pelos agricultores foi orientada para as características de interesse econômico - tipo de utilização - e produção de grãos/área. Assim originaram-se populações crioulas com grãos destinados ao fabrico de farinha, à alimentação de animais, de tipo mole e duro, de tamanho grande e pequeno, espigas com facilidade de debulha, etc.
 
Desde o início do período colonial, os consórcios com outras culturas fizeram parte da história do milho, sendo muito empregados nas lavouras de pequenas propriedades e de agricultura familiar.
 

Início do século XX
A primeira seleção de milho no Rio Grande do Sul: Assis Brasil
 
Assis Brasil, no fim do século XIX e início do século XX, desenvolveu população adaptada ao Rio Grande do Sul, utilizando se de técnicas que hoje se assemelham à seleção recorrente. O laborioso processo de seleção visou plantas com espigas longas, arquitetura uniforme e porte mais baixo que as populações de época. O material básico utilizado originou-se das populações de milho da região fronteiriça do Brasil com Uruguai e Argentina. A população, hoje denominada de Assis Brasil, possui grãos arredondados do tipo duro a semiduro, que se tornaram nova marca para os milhos do Rio Grande do Sul. A partir dele foram selecionadas outras populações como o Farroupilha.

 
Décadas de 30 e 40
O melhoramento das populações crioulas de milho

O início do século XX foi caracterizado pela ampliação da área de milho e, na época, surgiu grande número de populações ditas crioulas como Cunha, Oito-Carreiras, Amarelão. Também foram introduzidas o Asteca e o Caiano, provavelmente de São Paulo. Algumas destas populações tinham diferentes nomes conforme a região, o que torna difícil a sua separação e certeza de origem.
 
As populações crioulas foram fundamentais para a expansão do milho nas áreas coloniais, em geral de solos dobrados e com pedras, mas de fertilidade adequada.

O fato relevante na década de 40 foi o início da pesquisa gaúcha com a cultura do milho. Do esforço individual de seleção da população Assis Brasil passou-se ao programa da Secretaria da Agricultura/RS em Veranópolis com a contribuição do Dr. Verissimo, no sentido de agrupar as populações nativas. O melhoramento de algumas delas levou à criação do Aratiba Sintético, entre outros. Trata-se de uma população que sofreu seleção para uma série de características, entre elas, melhor uniformidade e produtividade.

 
Décadas de 50 e 60
O início do sistema mecanizado com preparo do solo convencional, a introdução de híbridos de ciclo longo e mudanças no sistema de capina e número de plantas/área
 
Os híbridos duplos, das décadas de 50 e 60, possuíam ciclo longo, boa resistência ao acamamento, colmos grossos e vigoroso desenvolvimento vegetativo. Esta última característica permitiu que a densidade de plantas pudesse ser aumentada, nas melhores condições de cultivo, até 45.000 plantas/ha. Os rendimentos em boas lavouras já alcançavam entre 4.000 e 5.000 kg/ha. Cabe destacar os nomes do Dr. Verissimo e do Dr. José Mattos. O primeiro, atuando na Estação Experimental de Veranópolis (Secretaria da Agricultura/RS), desenvolveu os híbridos (SAVE) de grande impacto na região colonial do RS. O segundo, Dr. Mattos, na época na Empresa Agroceres (Carazinho), também foi responsável pela adoção de híbridos de milho (AG) no Rio Grande do Sul.

Os tipos de híbridos (porte, vigor) e, principalmente, a forma de controle de plantas invasoras (mecanizada) exigiram que a distância entre fileiras permanecesse em 1,0 metro entre linhas, igual à lavoura colonial. As semeadoras tracionadas, específicas para milho, eram fabricadas com esta distância entre fileiras, pois o espaçamento entre linhas era determinado pela largura das rodas do trator e pela distância entre as rodas.

 
Década de 70
Plantio Direto e a introdução de híbridos tolerantes a maiores densidades de plantio
 
A década de 70 foi marcada pelo início da chegada de muitas empresas que comercializavam sementes de milho. A mudança deu-se na introdução de híbridos mais tolerantes e maiores densidades de plantas, porte mais baixo, menor empalhamento de espiga e baixa altura de inserção da espiga. Eram híbridos melhor adaptados à colheita mecânica pela uniformidade de secagem, pela facilidade de trilha e baixa inserção de espiga. A população de plantas pôde ser aumentada até por volta de 55.000 plantas/ha, 10.000 a mais do que no sistema tradicional. As lavouras de bom potencial já atingiam de 6.000 a 7.000 kg/ha.

Já no final da década começaram as primeiras lavouras em semeadura direta, sistema que alterou substancialmente o modo de manejo de solo, resultando em sua maior conservação. De forma tímida, no início, o sistema logo foi apresentando vantagens e sendo adotado pelos agricultores.

 
Década de 80
A introdução de híbridos duplos de ciclo curto responsivos à adubação nitrogenada e à diminuição do espaçamento entre linhas
 
A consolidação do sistema de Plantio Direto na década de 80 estava baseada em premissas inerentes ao sucesso da nova maneira de realizar o manejo do solo e da lavoura e a necessidade de inclusão da cultura do milho no sistema. Por isso, foi iniciado o sistema de sucessão e rotação cultural, o controle químico de plantas invasoras, o uso intensivo de fertilizantes para elevar a fertilidade do solo e também desenvolveram-se máquinas apropriadas à semeadura e à colheita.

Os híbridos disponíveis no mercado tinham ciclo mais adequado à sucessão das culturas, responsivos ao aumento da fertilidade do solo e com potencial de rendimento de grãos mais elevado que os seus predecessores.

A distância entre linhas, com o advento do Plantio Direto, passou a ter importância secundária no tocante à forma de controle de plantas invasoras. O manejo de nitrogênio foi uma das melhorias da lavoura com incrementos nas quantidades de nitrogênio na semeadura e, em especial, em cobertura. Combinava-se a capacidade de resposta dos novos híbridos à melhoria do solo - fertilidade, estrutura física e redução de perdas por erosão. Com isso, a produtividade das lavouras passou a 7.000/8.000 kg/ha.

 
Década de 90
A introdução de híbridos triplos e simples, de ciclo curto, tolerantes ao aumento da densidade de plantas e à diminuição do espaçamento entre linhas
 
A década de 90 foi marcada pela elevação do potencial produtivo das lavouras devido aos novos híbridos, à  melhoria do solo determinada pelo sistema de Plantio Direto, ao uso racional de sucessões e rotações, aos níveis de fertilidade mais elevados, ao início de cuidados fitossanitários e ao aperfeiçoamento de máquinas.

Os híbridos triplos e simples – com maior potencial de produtividade - e de ciclo mais curto toleravam melhor o stress causado pelo adensamento de plantas, permitindo às lavouras obter rendimentos elevados, próximos de 10 ton/ha com o uso de maior adubação.

A redução do espaçamento entre as fileiras para cerca de 0,70 m foi devida às máquinas de semeadura com distância entre linhas reguláveis. Ao final da década de 90 começaram a ser utilizados espaçamentos entre linhas ainda mais reduzidos (0,50 m), devido ao desenvolvimento de plataforma de colheita apropriada.

A década de 90 foi marcada pelo início do manejo integrado em que houve a consciência de que, para atingir altos rendimentos, era necessário otimizar os fatores de produção da lavoura. A capacidade de investimento do agricultor em insumos, sementes e máquinas foi fundamental, pois os custos de lavoura incrementaram sobremaneira. Isso era contrabalançado pelos altos rendimentos que tornavam a cultura rentável mesmo, muitas vezes, com baixos preços de comercialização.

 
Início do século XXI
A transgenia e a precisão na agricultura

A primeira década do 3º Milênio trouxe o desafio aos agricultores, aos técnicos e aos pesquisadores de entenderem a complexidade do sistema agrícola para vencerem as barreiras limitantes às atuais produtividades do milho. Enquanto na década de 90 procuravam-se apenas aspectos pontuais de manejo de lavoura, agora é necessário o estudo conjunto dos fatores de produção para que os resultados não sejam apenas a soma da contribuição individual de cada fator, mas da interação entre eles.

A década foi marcada pela chegada da transgenia, na qual genes específicos foram introduzidos em híbridos e cultivares de alto potencial de rendimento para auxiliar o controle de fatores bióticos (insetos, plantas invasoras) que interferem no crescimento do milho. Essa inovação estava sendo aguardada há décadas e constitui instrumento novo que redireciona o manejo integrado da lavoura.

O novo sentido de manejo tem como base a “precisão” na utilização do solo, na otimização dos níveis de insumos - sementes, adubos e defensivos - e no uso das técnicas culturais - época de semeadura, sistemas de rotação e sucessão cultural e colheita - de forma a interagi-las eficientemente com os fatores do meio que não são passíveis de mudança.
 
 
Perspectivas
A sustentabilidade da lavoura e do seu entorno
 
As ferramentas básicas hoje disponíveis para a lavoura de milho devem ser utilizadas dentro da nova concepção da agricultura do 3º Milênio em que passa a ser exigida a SUSTENTABILIDADE, nos aspectos “Ambientais”,  "Econômicos”, “Sociais“ e “Culturais”.

O conceito de sustentabilidade não se aplica somente à lavoura, mas também ao seu entorno, envolvendo os agricultores - respeitando a sua necessidade econômica, social e cultural - e a conservação dos recursos naturais dos quais a agricultura depende e deve utilizar de forma eficiente.
Autor:
Claudio Mario Mundstock
Pesquisador e Professor, Ph.D. UFRGS
Fonte: