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Artigos

08/07/2013

A evolução da produtividade no Cerrado

​A grande região Central do Brasil definida pelo Cerrado e pelos ecótonos de transição com outros biomas, possui 2 milhões de quilômetros quadrados, representando 23% do território nacional. Esta vasta área compreende a quase totalidade dos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins e do Distrito Federal e parcelas expressivas dos estados de Minas Gerais, Bahia, Maranhão e Piauí, além de pequenas parcelas dos estados de São Paulo, Paraná, Rondônia, Roraima e Amapá.

A expansão da produção agropecuária na região do Cerrado foi o resultado de uma série de fatores simultâneos com destaque para processos migratórios e de colonização; programas de desenvolvimento do Governo Federal; adaptação tecnológica de produção; avanço da infraestrutura; aumento do preço da terra nos estados do Sul do Brasil e em São Paulo; e aumento da demanda interna de alimentos e das exportações.

O acordar para o Cerrado
No início dos anos 60, um novo impulso à pesquisa agrícola e pecuária ganharia força com a reorganização do Ministério da Agricultura, a Lei Delegada n. 9, de 11 de outubro de 1962. Ela criou uma série de Institutos de Pesquisa e Experimentação, vinculados diretamente ao órgão, num total de seis para o Brasil. Dentre eles, destacou-se o Instituto de Pesquisa e Experimentação Agropecuária do Centro-Oeste (Ipeaco), sediado em Sete Lagoas, especializado na pesquisa de milho e sorgo, que foi incorporado à Embrapa.

A partir de 1973, a maior parte desses institutos de pesquisa e experimentação foi reunido e/ou subordinado à recém-criada Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias (Embrapa). A Embrapa coordena o Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária que congrega instituições públicas, federais, estaduais, universidades, empresas privadas e fundações, que, de forma cooperada ou por convênios, executam pesquisas nas diferentes áreas em que a empresa atua.

Enfatizando a pesquisa sobre o Cerrado, um dos primeiros estudos em relação às suas condições agrícolas foi produzido em 1972 pelo Instituto de Planejamento Econômico e Social (Ipea) e pelo Instituto de Planejamento (Iplan), em convênio com a Secretaria da Agricultura do estado de Minas Gerais. Intitulado Aproveitamento Atual e Potencial dos Cerrados, o estudo abrangeu a geografia física (solos, relevo, clima e precipitação), aspectos econômicos (sistema de transporte e necessidade de financiamento) e aspectos institucionais no que se refere à condução das pesquisas na área.

O Cerrado engloba diversos tipos de vegetação e possui clima tropical sazonal com a estação seca pronunciada de 4 – 6 meses e chuvas anuais de 1.000 – 2.000 mm. A topografia da região apresenta boas possibilidades para o  emprego de práticas agrícolas mecanizadas, visto que o relevo é, em geral, plano ou de ondulações suaves. Mas, o principal obstáculo que se tinha para o desenvolvimento da agricultura nos Cerrados refere-se à baixa fertilidade natural dos solos, devido à sua acidez, alto teor de alumínio e baixas concentrações de cálcio e magnésio. Outro ponto importante a ser mencionado é que os solos do Cerrado são, em sua maioria, pobres em fósforo assimilável. Estas características praticamente impossibilitariam o emprego de sistemas de manejo produtivo, conforme os estudos realizados pelo Ipea/Secretaria da Agricultura de Minas Gerais (1972).

Estas características, no entanto, foram superadas com a correção do solo, que viabilizou a incorporação das tecnologias de mecanização e de insumos químicos, superando os problemas de fertilidade. O estudo do Ipea (1973) já mostrara que o uso de técnicas avançadas, especialmente a utilização de calagem, a mecanização e os insumos modernos, possibilitaria a incorporação de terras consideradas pouco aptas para a atividade agrícola. Este estudo foi fundamental para a expansão significativa do cultivo arável e pela conversão de regiões qualificadas como ruins para a agricultura em áreas aproveitáveis mediante o emprego das modernas técnicas de manejo.

Anos da transformação
As culturas consideradas adaptadas aos solos de Cerrado, usando tecnologia recomendada, incluíam arroz de sequeiro, soja, mandioca e abacaxi; e em áreas com condições climáticas favoráveis, trigo, amendoim, milho e feijão. Avanços posteriores permitiam aumentar a lista de culturas com ampliação da produção de café, algodão, sorgo, frutas, hortaliças e legumes. O Cerrado transformara-se na área com as melhores condições para a expansão e diversificação da produção agropecuária brasileira.

Após este novo cenário, em meados da década de 70, devido à impossibilidade de ampliação das áreas produtoras de grãos nos estados do Sul - Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná - e no estado de São Paulo; aumento do preço da terra nestes estados; mudança na estrutura produtiva do estado de São Paulo em prol de produtos de maior valor por área (exemplo: cana-de-açúcar e laranja), houve deslocamento de produtores destas regiões tradicionais para o Cerrado, acompanhados ou estimulados pelas cooperativas que já atuavam nos estados de origem, criando filiais na região dos Cerrados. Parte deste processo ficou conhecido como “a gauchização” da fronteira agrícola brasileira, havendo transferência não só de conhecimentos técnicos e habilidades mas, também, de valores culturais.
 
Tomando a produção dos principais grãos - milho, soja, feijão, arroz e trigo - na região de Cerrado, esta aumentou de 8 milhões de toneladas, em 1975, para 70,3 milhões de toneladas em 2010, passando de 21% para 48,5% do total nacional no período.

No que se refere à área colhida com as culturas mencionadas, esta passou de 7 para 24,1 milhões de hectares no Cerrado, neste mesmo período. O aumento da produção foi acompanhado por grande crescimento da produtividade, com comportamento semelhante tanto na região do Cerrado quanto nas outras áreas produtoras do Brasil, subindo de uma média de 1,1 para 2,9 toneladas por hectare.

O processo recente de ocupação produtiva do Cerrado baseou-se ou foi liberado pelo complexo grãos–carne, com destaque para o binômio soja-boi. Quando se analisa a produção de grãos, a soja e o milho se destacam, respondendo por 56% e 36%, respectivamente, do volume de toda a produção de grãos no Cerrado no ano agrícola de 2010.

 
A cultura da soja no Cerrado
A explosão da produção de soja no Brasil coincide com o processo de modernização conservadora da agricultura brasileira, que se inicia no final da década de 60 e contribuiu, de forma significativa, para o salto quantitativo e qualitativo da produção de soja na região do Cerrado. Assim, em 1975, a produção de soja no Cerrado era praticamente inexistente, representando menos de 10% de toda a produção do grão no Brasil, ou seja, menos de 500 mil toneladas. Em 2010, a produção de soja no Brasil atingiu a marca de 68,7 milhões de toneladas, sendo que o Cerrado respondeu por 57% de toda a produção nacional.
 
Do ponto de vista econômico, a cultura da soja ganhou importância nos últimos anos, principalmente com a ampliação do mercado externo e das necessidades alimentícias asiáticas, em especial a China e a Índia. Em função disto, a produção mundial de soja foi multiplicada por 10 nos últimos 40 anos. O Brasil colaborou, de forma significativa, para tal crescimento e, desta forma, o Cerrado hoje é responsável por, aproximadamente, 15% de toda a soja produzida no planeta.
 
No tocante à produtividade de soja, o bioma em questão passou de 1,3 ton/ha, em 1975, para 2,9 ton/ha, em 2010. Esta evolução em produtividade na cultura da soja é fruto dos avanços tecnológicos tanto de manejo de solo e os diversos tratos culturais quanto de melhoramento genético, que propiciou o cultivo de variedades mais produtivas e com maior sanidade (Gráfico 1).
 
O gráfico abaixo retrata a evolução da produtividade de soja em âmbito nacional, podendo ser extrapolada a análise para a região do Cerrado. É notório que a produtividade, nos últimos 30 anos, sofreu incremento de aproximadamente 30 sc/ha, valendo a pena evidenciar que o melhoramento genético foi o fator preponderante para que se pudesse alcançar esta posição.
 
 

A cultura do milho no Cerrado
Com relação à cultura do milho, por ser mais conhecida, esta já possuía produção mais significativa no Cerrado em meados da década de 70, representando 21% das 10 milhões de toneladas produzidas no Brasil. O aumento da produção de milho entre 1975 e 2010 foi bastante significativo, sendo que o Cerrado atingiu a marca de, aproximadamente, 27 milhões de toneladas produzidas em 2010, o que correspondeu a 48,7% da produção nacional, que ficou em 55,4 milhões de toneladas. Parte deste crescimento nos últimos anos deve-se ao cultivo da segunda safra de milho, também chamada de Safrinha, com destaque para o estado do Mato Grosso e a região sudoeste de Goiás.

Em relação à produtividade, conforme ilustra o Gráfico 2, o milho viveu, nas últimas décadas, forte evolução. Muito disto deve-se a todo o esforço dos pesquisadores, tanto das instituições públicas quanto das empresas privadas, no sentido de desenvolver híbridos mais produtivos, utilizando-se dos recursos da engenharia genética. Como exemplo disto pode-se citar a evolução dos híbridos quanto à sua classificação, seguindo ordem cronológica de híbridos duplos, triplos e simples. A busca por materiais mais produtivos, com maior sanidade e também com a precocidade ideal para cada região, é o que tem norteado a pesquisa de milho nos últimos anos.
 
 
A biotecnologia veio a somar à produtividade, permitindo maior tolerância da cultura às principais pragas. Também alguns serviços agregados como o tratamento adicional de sementes com inseticidas e todo o posicionamento dos diversos híbridos aos diferentes ambientes são práticas que possibilitam melhores resultados. Por tudo isto, no Cerrado houve incremento da ordem de 65 sc/ha de milho nos últimos 30 anos, sem considerar os acessórios tecnológicos e, sim, somente a evolução genética.
Autor:
Marden Oliveira
Agrônomo de Vendas da DuPont Pioneer na região de Goiás
Fonte: