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Artigos

09/07/2013

Evolução da produção de leite no Brasil nos últimos 40 anos

A pecuária leiteira do Brasil iniciou em 1532, quando a expedição colonizadora de Martim Afonso de Souza trouxe da Europa para a então colônia portuguesa os primeiros bois e vacas. Durante quase cinco séculos de existência, a atividade caminhou morosamente, sem grandes evoluções tecnológicas. A partir de 1950, coincidindo com o surto da industrialização do país, a pecuária leiteira entrou na sua fase dita moderna, mas mesmo assim o progresso continuou muito tímido. No final dos anos 60, o rumo desta história começou a se alterar, quando o revolucionário leite tipo B ganhou expressão nacional. Entretanto, o salto mais qualitativo da pecuária leiteira aconteceu, somente, por volta de 1980. Daí em diante, o setor exibiu dinamismo que nunca tinha tido, possibilitando afirmar que o progresso que teve em apenas duas décadas foi maior que o dos últimos anos.

No início da década de 80, o leite C e o B eram líderes do mercado consumidor das regiões metropolitanas. O leite tipo A começava a disputar a preferência dos compradores. O leite longa vida chegou de mansinho e pouco a pouco foi deixando os concorrentes para trás, até se tornar no leite mais vendido no país. O ciclo do longa vida provocou fenômenos na agroindústria leiteira como a expansão das bacias leiteiras para regiões que antes não tinham expressão nacional na atividade, entre elas, as do Centro-oeste e do Norte. O longa vida extinguiu o caráter regional das marcas de leite, pois agora ele pode ser produzido num pequeno município e vendido em outros a milhares de quilômetros de distância.Para a velha geração, a imagem mais autêntica do leite eram as saudosas garrafas de vidro. Para a nova, é a caixinha (Rubez, 2001).

Os anos 90 foram muito ricos para o Brasil e para a pecuária leiteira. O começo da década foi marcado pela especulação financeira, numa época em que a inflação era de 3% ao dia, os laticínios vendiam o leite à vista e chegavam a pagar os produtores num prazo de 50 dias. Em 1990, a Sunab baixou a Portaria 43, que acabou com o tabelamento do preço do leite, pondo fim a um ciclo que durou meio século, ciclo esse que gerou distorções que acabaram por prejudicar a atividade leiteira. Embora a abertura econômica tenha provocado grande  desnacionalização das empresas brasileiras e invasão de produtos estrangeiros em nosso mercado como os lácteos, fazendo com que o país se tornasse pátria mundial desses produtos, por outro lado ela obrigou a atividade a se tornar mais profissional, pois essa é a lei da globalização econômica.

Nessa década também foi iniciada a coleta de leite granel, quando a economia brasileira e a mundial foram contaminadas pela globalização. A ordem era ser moderno, competitivo, estar preparado para enfrentar a concorrência. Aconteceu o boom da informática e da internet. O Brasil criou o Código de Defesa do Consumidor. A sociedade passou a ter uma postura mais crítica em relação aos produtos que comprava. O lançamento do Plano Real, que venceu o dragão inflacionário, levou as empresas de laticínios a buscar seus lucros mais na parte operacional do que na especulativa (Rubez, 2003).

Ao longo dos últimos 20 anos o setor lácteo passou por diversas transformações e vivenciou momentos distintos. Mesmo nos diferentes ambientes de intervenção, a produção sempre cresceu. Somente nos últimos 10 anos a produção de leite cresceu 55% no Brasil (Gráfico 1). As empresas de beneficiamento de leite estão apostando no crescimento do setor abrindo fábricas com capacidades bem acima do volume processado hoje.
 
 
No período entre 2006 e 2010, o Brasil foi o segundo país em aumento absoluto na produção de leite, com 1,3 milhão de toneladas, ficando atrás apenas da Índia com 2,9 milhões de toneladas. Este crescimento fez com que o Brasil se aproximasse da Alemanha, da Rússia, da China e do Paquistão, podendo vir a ocupar, na próxima década, o posto de terceiro maior produtor mundial, atrás da Índia e dos Estados Unidos, caso mantenha esta taxa de crescimento. A França, com 25 bilhões de litros e segundo maior produtor europeu, já foi ultrapassada há alguns anos (Carvalho, 2011).

No entanto, esta expansão contínua da produção de leite cria novos desafios, já que a produtividade em litros de leite/vaca/ano ainda figura entre as mais baixas do mundo (Gráfico 2), com 1.381 litros. Países como o Uruguai, que se enquadra em 46ª maior produção mundial de leite, e a Argentina na 17ª colocação são os países que mais exportam produtos lácteos para o Brasil.
 
 
Por ora, as exportações lácteas brasileiras são tímidas (Tabela 1). Além da necessidade de alavancar a demanda doméstica torna-se fundamental uma inserção agressiva do país no mercado internacional de leite e derivados. O consumo de leite projetado para 2012 é de aproximadamente 170 litros por habitante, um aumento de cerca de 2% em relação a 2011, porém ainda abaixo do recomendado pelo Ministério da Saúde, de 200 litros per capita por ano.


Como opção de volumoso conservado em mais de 70% das propriedades, a cultura do milho, na forma de grão e silagem, participa de forma significativa na evolução da pecuária de leite brasileira. A intensificação dos sistemas de produção para a exploração do maior potencial genético dos rebanhos e a alta nos preços dos grãos e seus derivados foram fatores determinantes para o aumento dos investimentos dos pecuaristas na produção de volumosos de qualidade. Pesquisas de mercado no Brasil estimaram que a área da cultura de milho destinada à ensilagem foi de aproximadamente 980.000 hectares na safra de verão de 2009/2010 e de cerca de 450.000 hectares na segunda safra. Estima-se que a área de milho para silagem represente entre 14 e 18% do total da semente de milho certificada vendida no país.

A engenharia genética ampliou os limites do melhoramento de muitas espécies vegetais como o milho. A transferência de genes de uma espécie para outra criou novas possibilidades, conferindo à planta resistência a pragas, tolerância a herbicidas e até mesmo tornando-a mais apta a enfrentar a seca e o frio. A proteína Bt reduziu a incidência de pragas, aumentou o rendimento de grãos e de forragem por hectare de milho para silagem. Com menos uso de agroquímicos, as silagens se tornaram mais baratas e com melhor qualidade. Ademais, os grãos OGM's têm baixa incidência de micotoxinas decorrentes dos danos causados por lagartas, reduzindo o uso de medicamentos e melhorando o desempenho dos animais. Há pesquisas em andamento com genes que melhoram a qualidade nutritiva do milho, aumentando o teor de aminoácidos essenciais, a digestibilidade e a absorção de minerais. Quando esses transgênicos estiverem à disposição do produtor, este desfrutará da redução de insumos e haverá menos emissão de resíduos que, em quantidades elevadas, podem ser poluentes do solo e da água. Na Tabela 2 são apresentados resultados de produtividade e qualidade nutricional de silagem de milho de alguns híbridos OGM's (tecnologia Herculex®I).
 
 
Associadas à biotecnologia, novas técnicas agronômicas como a seleção de híbridos adequados à época de plantio; combinação de diferentes híbridos, de precocidade e defensividade complementares e a adequação da população e redução de espaçamento entre linhas, de 90 para 45 cm, foram decisivos para o incremento de produtividade.
 
Contudo, a agilidade na colheita da cultura do milho passou a ser fundamental para se garantir qualidade na silagem produzida. Se nas lavouras de verão as temperaturas mais elevadas aceleram a maturação da cultura, que associada aos períodos frequentes de chuva dificultam e atrasam a colheita, nas lavouras de safrinha a colheita deve ser rápida em função do ciclo precoce da cultura e aos maiores riscos de perdas por doenças ou geadas. Assim, em meados da década de 90 surgem no mercado brasileiro as primeiras colhedoras automotrizes para silagem. Também começa a ser crescente a oferta de prestadores de serviços de ensilagem. Informações levantadas junto aos fabricantes mostram que no ano de 2010 foram vendidas aproximadamente 7.000 ensiladeiras acopladas (uma ou duas linhas). Para as duas principais marcas de colhedoras de forragem automotrizes comercializadas no Brasil estima-se que tenham sido vendidas mais de 100 máquinas nos últimos três anos.
 
O cenário que se desenha para a pecuária de leite é promissor. Por ser a vaca um transformador de grãos e forragem em leite, nossa eficiência na área agrícola com produtividades crescentes de milho, soja, algodão, cana-de-açúcar e outros, certamente nos conduzirá a custos de produção cada vez mais competitivos frente a nossos concorrentes. Ainda mais se considerarmos os milhões de hectares que ainda temos por cultivar sem que seja necessária a derrubada de um único hectare de floresta. Temos que evoluir muito quanto à qualidade do nosso leite, mas alheio à falta de política tecnicamente respaldada para o setor, nosso leite melhora a cada dia que passa. O ciclo das exportações de produtos lácteos brasileiros chegará porque é uma condição inerente à nossa pecuária leiteira, devido a suas enormes vantagens comparativas em relação aos grandes países exportadores. Tanto que já figuram entre as maiores empresas de laticínio do Brasil grandes grupos de investimento e não somente empresas com tradição no setor.
 
Como elo mais importante em toda a cadeia produtiva, o produtor deve ter os pés no chão...Mas, sempre, os olhos no futuro.
 
 
Autor:
João Ricardo Alves Pereira
Professor Adjunto do Depto. de Zootecnia - Curso de Zootecnia UEPG/Castro-PR
(jricardouepg@uol.com.br)
Fonte: