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Artigos

30/12/2013

Helicoverpa armigera, o novo desafio da agricultura brasileira

A agricultura brasileira tem passado por vários desafios desde o seu início, às vezes problemas econômicos e às vezes problemas de pragas ou doenças, chamados de problemas bióticos. Dentre os problemas bióticos, consideramos vários, como o cancro da haste na soja a partir de 1989, nematóide do cisto da soja em 1992, cercospora no milho e ferrugem da soja em 2001, e a partir do início do ano de 2013 a Helicoverpa armigera.

De todos os problemas enfrentados pelos agricultores, a Helicoverpa sem dúvida foi o mais divulgado pelos meios de comunicação, não que isso tenha resolvido o problema, mas sem dúvida alertou os agricultores para um problema iminente que ameaça todas as áreas e diversas culturas no Brasil.

A identificação oficial desta lagarta ocorreu através do comunicado em 22 de Março de 2013 pela Pesquisa Agropecuária Tropical em Goiânia. No mesmo instante, a Embrapa Londrina realizou o mapeamento da mesma.

A identificação foi o processo final de uma série de problemas ocorridos na safra 2012/2013 iniciando em novembro de 2012 na região norte do estado do Mato Grosso e culminando no oeste baiano no início de 2013, agravado fortemente por veranicos simultâneos que não somente favoreceram a praga, mas também comprometeram o controle da mesma.  Os danos estimados nas culturas das regiões mais afetadas foram: na soja de 30 a 40%; no algodão de 25 a 30% e no milho de 3 a 5%.  No Oeste Baiano, estimou-se um prejuízo de 1,7 bilhões de reais na safra 2012/2013.

Até então, existia uma grande dúvida sobre a identificação da praga, pois existiam dúvidas se tratava-se da lagarta da maçã do algodoeiro (Heliothis virescens) ou da Helicoverpa zeae, ambas existentes no Brasil, mas de certo modo, fáceis de se controlar.  O que se notava na época, era a grande dificuldade de identificação. Veja no Quadro 01 a grande similaridade entre as duas.
 


Através da Figura 01, pode-se diferenciar as mariposas destas duas espécies de lagartas.  Outro fator de distinção das duas, pode ser feito com o uso de uma lupa de 10 vezes de aumento, verificando-se a diferença no terço final das lagartas, Figura 02.
 



A Helicoverpa zeae é muito conhecida, na cultura do milho é chamada de lagarta da espiga do milho e em várias culturas como a do tomate é conhecida como broca grande do tomateiro.  As duas Helicoverpas são muito parecidas e o único meio de identificação é através de análise de DNA ou de análise criteriosa a nível microscópico do aparelho genital do adulto masculino. A Figura 03 apresenta as principais características da lagarta Helicoverpa armigera a partir do quarto instar (fase da lagarta), com mais de 1 cm de comprimento. A lagarta pode ser diferenciada por pêlos brancos na parte frontal, pintas (protuberâncias) no formato de cela na parte superior após as patas e tegumento levemente coriáceo.  Esta lagarta possui diversas tonalidades de cor, variando do amarelo opaco, verde, verde escuro a negra.  Outra característica desta lagarta é que, quando perturbada, ela recolhe a parte da cabeça entre as “patas” dianteiras, conforme a Figura 03.



Quando a praga foi identificada como Helicoverpa armigera, todas as atenções se voltaram para a Austrália, onde a agricultura é muito similar a nossa e esta praga há alguns anos foi responsável por um dos maiores desastres na produção agrícola daquele país.

Esta lagarta é conhecida como lagarta do velho mundo, devido a sua existência na região sul da Europa, China, índia e mais recentemente na Austrália. O Brasil é o primeiro país das Américas a registrar a ocorrência deste inseto.  Até então, a H. armigera era considerada como praga quarentenária, ou seja, não existia no Brasil, porém era classificada como de alto risco para a agricultura no país. Não temos dados de como esta praga apareceu e como se distribuiu com tanta intensidade.

Na Figura 04, veja o ciclo das Helicoverpas na situação da Austrália. No Brasil, ainda não existe uma definição oficial do ciclo de vida desta lagarta.



Principais problemas na soja e no milho

A diferença básica desta lagarta para as demais lagartas conhecidas na cultura do milho e da soja no Brasil se deve à preferência pelo ataque às estruturas reprodutivas das plantas, como flores, vagens e espigas. Também existem relatos de ataque na fase vegetativa da soja e do milho (Figura 5a e 5b, respectivamente).
 




Nesta fase, os danos são pequenos quando se compara o dano da H. armigera ao da Anticarsia gemmatalis na soja ou da H. armigera ao da lagarta do cartucho do milho (Spodoptera frugiperda), sendo que alguns agricultores não tomam nenhuma iniciativa de controle nesta fase. Isto causará grandes problemas quando as culturas atingirem a fase reprodutiva e com alta pressão da praga, (Figura 6a e 6b, respectivamente), com controle extremamente dificultado pelo tamanho da cultura e local onde a praga se encontra.




Os fatos que ocorreram na safra passada fizeram com que os agricultores se preparassem para enfrentar a praga na safra 2013/2014, porém, devido as condições bastante secas no início da safra, o ataque da praga veio mais cedo, fazendo com que os agricultores utilizassem os produtos adquiridos de maneira muito antecipada. O fato dos agricultores no Brasil central não terem tempo hábil para dessecar e aguardar a morte das plantas daninhas para posterior plantio, ou seja, dessecação antecipada, fez com que as lagartas da Helicoverpa atacassem as fases iniciais da lavoura (Figura 07), despendendo grande uso de inseticidas nas fases iniciais e mais uma vez consumindo os defensivos precocemente. Outro fato é a grande adaptabilidade da Helicoverpa armigera para sobreviver na planta daninha buva (Conyza sp), favorecendo a permanência desta praga na entressafra.

 



Esta praga pode atacar uma gama enorme de culturas como o trigo, algodão, feijão, laranja, café e diversas plantas daninhas, além da soja e do milho. No sorgo, ela tem uma ótima adaptabilidade, porém os agricultores australianos usam esta cultura para fazer controle biológico desta praga, pois a mesma se torna bastante exposta na cultura do sorgo, facilitando o controle com custos mais baixos.

 
Monitoramento

O meio mais eficaz no controle desta praga passa pelo monitoramento das lavouras e das plantas daninhas antes do plantio.

A utilização de armadilhas com feromônio se mostra bastante eficaz, além da armadilha luminosa (sendo esta um pouco menos específica e mais trabalhosa que a de feromônio). Essas armadilhas podem ser utilizadas para monitorar a população dos adultos machos (Figura 08).

 



Após a instalação da cultura, precisamos monitorar com amostragem, principalmente dos novos trifólios onde as lagartas costumam se alojar dificultando a sua localização (Figura 5a). É normal a produção de uma teia pela lagarta.


Com a soja em um tamanho maior, já recomendamos a utilização do pano de batida (Figura 9). O nível de controle para a Helicoverpa armigera, desenvolvido pela Embrapa (Quadro 2), mostra as quantidades toleráveis da lagarta em relação a cultura e ao estágio de desenvolvimento da mesma.


Controle

Em se tratando de controle, um fato extremamente importante foi verificado nas lavouras que foram assistidas por uma assistência técnica de qualidade. Estas propriedades sofreram menos com a praga e tiveram um uso mais racional de defensivos agrícolas. Isto é uma estratégia extremamente importante, indiferente se a assistência venha de uma agência pública, privada, de associações, etc.

Existem registros emergenciais de inseticidas para o controle dessa praga a todo o momento. Hoje, no Quadro 03, estão os produtos registrados, porém aconselhamos a verificar com frequência a liberação de novos produtos no site: http://www.cnpso.embrapa.br/helicoverpa/produtos.htm

 



A utilização de carbamatos é bastante comum e possui uma boa seletividade aos inimigos naturais das lagartas de diferentes espécies, porém em condições de clima extremamente seco e quente, e com a presença de lagartas maiores que 1,2 cm o controle alcançado não é tão efetivo. Temos observado bons níveis de controle de sojicultores usando a seguinte sequência de estratégia de manejo para controle de Helicoverpa:


1. Dessecação antecipada;
2. Monitoramento e tratamento com Inseticidas específico para mastigadores caso necessário;
3. Monitoramento na emergência das culturas
4. Aplicação de inseticidas carbamatos* quando atigir 7,5 lagartas/m na fase vegetativa
5. Aplicação de inseticidas carbamatos / Fisiológicos* quando atingir 7,5 lagartas/m na fase vegetativa
6. Aplicação de inseticidas Diamidas / Fisiológicos* quando atingir 7,5 lagartas/m na fase vegetativa
7. Aplicação de inseticidas Diamidas** ou  Oxadiazinas** ou Pirazol*** / Fisiológicos* quando atingir de 1 a 2 lagartas/m na fase reprodutiva

Dentro do controle, é muito importante a tecnologia de aplicação de defensivos. Listamos abaixo algumas dos requerimentos para que se faça uma ótima aplicação:

1. Umidade Relativa: maior ou igual a 60%;
2. Velocidade do Vento: menor que 13 km/h;
3. Hora do dia: normalmente para se atingir a umidade relativa e a velocidade do vento citada anteriormente, os melhores horários são a noite, devendo ser evitado nos dias quentes aplicar das 10 às 16hs;
4. Vazão: muito relativa de acordo com a ponta de aplicação;
5. Procure trabalhar com produção de gotas pequenas, pois estas gotas têm maior capacidade de atingir a parte inferior da planta.

Como comentários finais, lembramos que os agricultores necessitam de Assistência Técnica para a correta identificação da praga e para a indicação do método de controle adequado para a situação.

Deve-se monitorar as lavouras antecessoras ou mesmos lavouras de inverno, utilizar o Manejo Integrado de Pragas como premissa básica de controle, principalmente evitando produtos pouco seletivos a inimigos naturais como os organofosforados e piretróides.

A utilização de lavouras Bt é fundamental para esse manejo, e é importante lembrar-se da importância de se realizar o plantio das áreas de refúgio para auxiliar na manutenção da tecnologia, considerando-se os percentuais indicados para cada tecnologia utilizada.

Utilização de bioinseticidas como baculovírus ou fungos entomopatogênicos específicos para esses tipos de lagartas é uma prática com excelente efetividade, como percebido no caso do uso desses produtos nas lavouras de sorgo na Austrália.

Depois das lavouras instaladas, monitorar com pano de batida ou armadilhas.

É importante lembrar que nos últimos 20 anos, a agricultura passou por vários desafios e a Helicoverpa armigera será mais um deles, depende de nós a forma como iremos superá-lo. É importante nos conscientizarmos que é possível o controle desta praga com uso racional de tecnologia, preservação dos inimigos naturais e divulgação de informações importantes para os agricultores.
 
*Defensivos com posicionamento favorável da Embrapa para registro emergencial;
** Registro emergencial pelo MAPA para soja e algodão
***Registro emergencial pelo MAPA para algodão;

André Aguirre Ramos
M.Sc. Eng Agrônomo
 
Autor:
André Aguirre Ramos
Fonte: