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Artigos

03/02/2014

Professor universitário decide investir na produção de leite



Na edição do Nossa Comunidade, do MilkPoint, foi feita uma entrevista com o Professor João Ricardo Alves Pereira, que contou como e quando surgiu a ideia de começar a produzir leite na Chácara São Francisco de Assis. João Ricardo também é colunista do Blog AgriMilk aqui no MilkPoint!

Confira a entrevista!

1) Quem é João Ricardo? De onde veio a vontade de trabalhar como professor na área de pecuária?
 
Diferente de quase todos os produtores, minha família não é do ramo. Meu pai é encanador e minha mãe dona de casa. Mas o gosto pela pecuária vem desde criança. Sempre brincava de “fazendinha” com amigos imaginários! Tive a oportunidade de fazer Zootecnia, sendo o primeiro a concluir um curso superior nas famílias dos meus pais. Fiz mestrado em Nutrição Animal e Pastagens na ESALQ/USP e doutorado na Unesp/Jaboticabal, onde também concluí a graduação. Em 1990 conheci na região a Cooperativa Batavo numa visita com a turma de faculdade quando íamos para a Expointer. Fiquei deslumbrado com o lugar, vendo vacas de alta produção e forragens de inverno, já que sou de Ribeirão Preto/SP e só conhecia “braquiária” e vacas mestiças. Em 1996 me tornei professor na Universidade Estadual de Ponta Grossa-PR e me mudei definitivamente para o Paraná. Na universidade, trabalhei na Fazenda Escola onde desenvolvemos, além da pecuária de leite, um projeto de ovinocultura intensiva. Implantamos o curso de Zootecnia, onde eu fui o coordenador até a formatura da primeira turma, em 2006. Nesse mesmo ano, deixei a dedicação exclusiva na Universidade, embora mantenha a mesma carga horária de trabalho, e comecei uma empresa de consultoria em pecuária, a Vitalle Nutrição Animal. O trabalho junto à empresas do setor me oportunizou conhecer propriedades e projetos em quase todo o Brasil e alguns poucos no exterior, além de produtores, principalmente de leite, funcionários e técnicos, que considero como meu segundo “curso universitário”. Particularmente, me sinto realizado fazendo palestras para produtores em dias de campo e ouvindo as dúvidas deles. O prêmio impacto em 2012 foi um marco na minha vida profissional.

2) Quando surgiu a ideia de começar a produzir leite? Conte-nos como começou a história da Chácara São Francisco de Assis.

Eu comecei criando Angus em sociedade com um amigo, o Ricardo Wolter, na fazenda da família dele em Carambeí. Fizemos isso por sete anos. Em julho de 2011 eu resolvi partir para a “carreira solo”, pensando numa atividade para depois da aposentadoria como consultor e professor. Comprei 30 hectares próximos de Ponta Grossa e começamos, literalmente do zero, uma unidade de produção de leite (leiteria), já que na propriedade tinha somente uma pequena casa de dois cômodos! Plantamos milho para silagem e, em 2012, começamos as construções. O objetivo era ter um local para conduzir meus trabalhos de pesquisa com silagem e máquinas forrageiras e, na sequência, projetos de nutrição animal com vacas leiteiras. Em janeiro de 2013 levamos para a propriedade as primeiras novilhas Jersey, que eu havia trocado com alguns Angus e, em seguida, comprei mais dezoito novilhas holandesas. O meu colaborador e grande amigo João Vicente Los, que trabalhava com a gente na criação de Angus, mudou-se para lá e começamos a tocar a Chácara São Francisco de Assis (nasci no dia dele!).


Vacas indo para a ordenha – Holandesas e Jerse

3) Como foi estruturado o projeto para produção leiteira? Qual o sistema implantado?

Construímos um free-stall para alojar 50 vacas em sistema de confinamento, com possibilidade de ampliação para até 90, com piso ripado e coleta de dejetos, e uma sala de ordenha com seis conjuntos. Nossa área de lavoura para produção de comida é de 22 hectares, mais 3 hectares de pastagem de tifton, onde fazemos a recria. Uma parte da lavoura é destinada aos trabalhos de pesquisa. A maior parte das ideias para as instalações, e mesmo de manejo, veio de visitas e conversas com produtores que tive a oportunidade de conhecer durante esses anos como consultor. Eu chegava de viagem na sexta-feira, no sábado discutia com o João Vicente, adequávamos aquilo à nossa necessidade, e construíamos do nosso jeito.


Rebanho Holandês e Jersey

4) Como é a propriedade atualmente: padrão de raça do rebanho, rebanho total, nº de vacas em lactação, média de produção diária total, média de produção diária por vaca, etc. Quais são as metas de produção para o futuro?

Em abril de 2013 fizemos a primeira entrega de leite para a Cooperativa Batavo, da qual passei a ser cooperado (depois de 22 anos daquela viagem com a faculdade...rssss). Foram 350 litros de dois dias de produção. Atualmente, estamos ordenhando 28 vacas, 14 holandesas e 14 Jersey, e produzindo cerca de 700 litros/dia.

Eu tinha intenção de ficar com apenas uma raça, mas acertamos o manejo, em separado, e estou bastante contente com o desempenho das duas. Quase a totalidade do rebanho são vacas de primeira cria. Temos 28 vacas em lactação, devendo chegar a 35 nos próximos dias. Nossa média de produtividade tem sido de cerca de 30-32 litros nas holandesas e de 20-22 nas Jersey. Temos um lote de novilhas que entrará em lactação até o início do próximo ano e nossa produção deve dobrar.

Em 2014/2015, devemos atingir uma produção diária de 1500 a 1700 litros dia, com a entrada de outros animais no rebanho.

O projeto está dimensionado para uma produção diária de 2.500 litros/dia, que seria nossa capacidade de produção de volumoso na propriedade.


Vacas Holandesas – Produção média atual 30-32 litros/dia

5) Como foi programada a estratégia de alimentação dos animais?

Conforme respondido acima, possuímos 22 ha de área agrícola onde plantamos milho no verão e uma parte em segunda safra. Nessa mesma área, no inverno, plantamos culturas como aveia e azevém, sendo uma pequena parte utilizadas para pastejo de novilhas e o restante transformado em silagem pré secada.

Temos como meta buscar a máxima eficiência na produção de silagem de milho no verão e parte da safrinha, bem como na produção de silagem de forragens de inverno, pois entendendo que esta é a única forma de termos menores custos com alimentação num sistema de produção um pouco mais intensivo.

Cultura de milho para produção de silagem
 

Colheita do Azevém - Cultura de inverno

Futuramente temos a intenção de terceirizar a recria de novilhas (5 até 22 meses) e ampliar um pouco nossas instalações. Os investimentos iniciais foram significativos, mas por ver boas perspectivas na atividade leiteira, acreditamos que tudo dará certo.

Lote de novilhas em recria – Piquetes de Tifton

6) O que você considera de melhor na sua propriedade (um diferencial)?
Fizemos um investimento grande na captação de dejetos. O piso do free-stall é ripado (vazado), permitindo a coleta de armazenamento dos dejetos no mesmo local. Os dejetos da lavagem da ordenha da sala de espera são captados e decantados. Todos esses dejetos são distribuídos periodicamente nas área de lavoura, que são muito próximas. Para conforto dos animais utilizamos colchões de raspa de borracha cobertos com uma camada bem significativa de serragem (disponível na região). Dessa maneira oferecemos mais conforto às vacas e camas sempre limpas e secas, o que tem resultado em baixos índices de CCS e contagem bacteriana. Temos recebido ótimas bonificações com isso. Nossas primeiras análises indicaram que os dejetos apresentam cerca de 10% de matéria seca; 2% de nitrogênio; 1,7% de fósforo; 1,3% de potássio, com 73% de matéria orgânica numa relação C:N de 27:1.

Detalhe do piso ripado e camas com colchões de raspa de borracha cobertos por serragem

Como a região tem um clima favorável que permite boas produtividades de lavouras de verão e inverno, nosso objetivo é maximizar a produção de volumoso na área, integrando a distribuição dos dejetos captados com um manejo mais intensivo nas culturas. Teremos que ser bons agricultores também.

Quanto aos animais, trouxemos uma boa experiência, da criação de Angus. O João Vicente, meu colaborador, conhece bem práticas como inseminação artificial e mesmo IATF. Na escolha de sêmen temos priorizado touros realmente provados com acurácia alta para características produtivas.

7) Quais foram os últimos investimentos na fazenda? O que foi mudado? Quais são os próximos planos e objetivos a curto e longo prazos?

Fizemos investimentos em infraesturura essencial, como estradas internas, escavação de silos e reforma da casa. Nossos investimentos recentes têm sido na aquisição de animais para aumentarmos de forma mais rápida a produção. Num segundo momento, estabilizar as dívidas e investir, de forma mais gradual, na ampliação do free-stall, para daqui uns dois ou três anos, com a terceirização da recria, chegarmos ao número máximo de animais.

8) Quais suas principais dificuldades e desafios na produção de leite?

O início é bastante difícil quando se começa do zero. Quando já se tem a atividade em andamento, com rebanho, mão de obra e alguma estrutura, os investimentos podem ser feitos com parte da renda vinda da atividade. No nosso caso o recurso veio de minhas outras atividades e de financiamentos que, particularmente, vejo como opções interessantes para captação de recursos com juros razoáveis.

Assim, nosso desafio é aumentar rapidamente a produção, com boas produtividades, e ter maior receita para pagar os investimentos feitos, principalmente em infraestrutura.

9) O que te fez acreditar e começar na atividade?

Particularmente, conheço muitas propriedades de leite no Brasil e todas aquelas bem sucedidas têm em comum a busca pela eficiência em cada uma das etapas envolvidas no processo. São boas em produzir comida, na genética e manejo do rebanho, na sanidade e higiene, enfim, tocam o negócio como uma empresa, seja ela uma microempresa, com um rebanho de 20 vacas, ou mesmo uma megaempresa, com mais de 1.000. Acredito que meu desapego (nenhuma relação familiar com o negócio) me ajude a tratar o negócio de forma mais profissional.

A rentabilidade do negócio também é atrativa. Outras atividades, que talvez eu tivesse competência para tocar, não me oportunizariam a mesma rentabilidade.

10) A pecuária de leite tem vivenciado um problema sério com mão de obra, como é na sua propriedade? Como você desenvolve a gestão de pessoas?

A mão de obra é, sem dúvida nenhuma, o maior desafio na estruturação da atividade. Por isso acredito que maiores investimentos em infraestrura para demandar menor mão obra sejam compensadores. Trabalhos insalubres e pouco motivadores como limpar curral e tirar silagem manualmente devem ser substituídos gradativamente.

Precisamos ter menos funcionários cada vez mais capacitados. Mas para que tudo isso ocorra precisamos ter mais renda. O ideal é um funcionário para cada 600 ou 700 litros de leite. Mas não é possível eu produzir 700 litros com um único funcionário ou mesmo 1.400 com apenas dois. Preciso rapidamente chegar a 2.000 litros para reduzir custos com mão de obra.

Para manter a equipe motivada precisamos pagar bem e criar vínculo do funcionário com a empresa. Enquanto o produtor achar que dar casa com água e luz é um diferencial, dificilmente vai formar uma boa equipe de trabalho.

11) Como enxerga a atividade leiteira no país? O que falta no setor?

A atividade leiteira é muito desafiadora, mas também promissora. Se o número de produtores de leite diminui significativamente, mas a produção aumenta muito (quase 50% em dez anos), isso é um indicador muito claro da crescente e necessária profissionalização do setor.

Mas para isso, a meu ver, o produtor tem que enxergar quais são os gargalos da sua atividade e buscar rapidamente uma solução e é justamente aí que a coisa emperra. Para isso, antes de qualquer coisa, a primeira atitude deveria ser revisar sua contabilidade, ver seu saldo no banco e procurar uma ajuda administrativa (financeira), a partir daí ver quais serão as alterações técnicas (alimentação, manejo, reprodução, etc) que deverão ser implantadas e medir (saber como fazer isso) o retorno de cada ação implementada.

Os produtores que fazem isso, cada um a sua maneira, encontram mais rápido o caminho e conseguem melhor rentabilidade.

Por outro lado, vemos muitos produtores reclamando dos custos de produção mesmo sem ter a mínima ideia qual é o seu, por mais aproximado que seja. O custo com alimentação é o exemplo mais comum. Se a vaca precisa comer volumoso + concentrado para atender suas exigências de produção e o concentrado, por ser commoditie, tem custos variáveis de acordo com a demanda de mercado, sua única saída é investir na produção e qualidade (real) do volumoso, o que dificilmente acontece. Mistura-se conceito de comida para matar a fome, onde qualquer coisa serve, com comida para vaca produzir leite, que é algo bem diferente, que demanda adubo, defensivos, água e eficiência na colheita. Por isso temos uma verdadeira indústria de venda de resíduos, capins e “baldinhos” milagrosos.

Gosto muito de acompanhar fóruns de discussão no Milkpoint e percebo que as discussões referentes a manejo (comida, raça e reprodução) que têm a “palavra custo” são as mais participativas, enquanto que as que têm números (mercado, valores de insumos, preço do leite, etc) são as menos participativas. Soma-se a tudo isso, na grande maioria das vezes, uma pesquisa e assistência técnica cheias de ideologia. Se a vaca come pasto não pode comer outra coisa, ou se come “de vez em quando” é em quantidade tão pequena que é quase desprezível. Na mesma linha, se as vacas são estabuladas, as médias citadas (dizem que é de todo o rebanho!) são tão elevadas que só seria possível se mais da metade das vacas produzissem mais de 60 ou 70 litros, o que na prática são muito poucos produtores que já conseguem estes números.

Do outro lado, os produtores que considero eficientes, estão preocupados com o retorno financeiro sobre cada real investido, seja no pasto ou no cocho.

Como me considero um novato no negócio, meu desafio é o mesmo de vários, colocar em prática o que falo.
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