Skip Ribbon Commands
Skip to main content
Navigate Up
Sign In
Você está em: Skip Navigation LinksInício / Media Center / Artigos

Artigos

02/04/2014

Controle de Mancha de Turcicum na Safrinha

O plantio de milho safrinha representa, atualmente, 56% da área cultivada com o cereal no Brasil. Nos últimos anos, a produção de milho brasileira tem se deslocado do verão para a Safrinha. O último relatório da Conab (set/2013) indica um aumento de 18% na área de safrinha e uma diminuição de 8,6% na área de milho verão na safra 2013/14. Não é por acaso que os agricultores estão seguindo essa tendência. O cultivo de milho safrinha apresenta inúmeras vantagens do ponto de vista agronômico e econômico. A soja e o milho são cultivos que se complementam. O milho aproveita o residual de fertilizantes da soja e, com isso, reduz muito o desembolso necessário com adubação. Do ponto de vista agronômico, como são de famílias distintas, o sistema quebra o ciclo de vida de insetos e contribui para diminuição do inóculo de doenças. Se, há alguns anos, o potencial produtivo da Safrinha era muito abaixo do potencial das lavouras de verão, hoje essa diferença diminuiu bastante, graças à adoção de tecnologia e ao desenvolvimento de materiais cada vez mais adaptados a esses ambientes. Atualmente, é comum observarmos lavouras de milho safrinha com médias acima de 150 sc/ha em diversas regiões do país, produtividade inalcançável até poucos anos atrás nesses ambientes. Dentre os avanços tecnológicos que possibilitaram esse salto de produtividade, o manejo eficiente de doenças é um dos fatores mais importantes, pela proteção do potencial produtivo das lavouras. A Mancha de Turcicum (Exserohilium turcicum) é uma das principais doenças que ocorrem na Safrinha, apresentando grande potencial de dano, dependendo da susceptibilidade do híbrido. Em anos de alta pressão da doença, e condição ambiental favorável ao patógeno, é possível observar perdas de mais de 50% do potencial produtivo. Portanto, o conhecimento de aspectos da biologia do fungo e de métodos de controle é fundamental para se evitar perdas causadas por essa doença.

 
Caracterização da doença

A Mancha de Turcicum é causada pelo fungo Exserohilium turcicum, anteriormente denominado Helminthosporium turcicum. O patógeno sobrevive em restos culturais de milho na forma de conídios e micélios. Assim que as condições ambientais se tornam favoráveis (temperaturas amenas e alta umidade), os esporos são produzidos. Essas estruturas são disseminadas pelo vento e respingos de chuva dão início a um novo ciclo de infecção (Figura 1). Condições ideais de infecção ocorrem quando há molhamento foliar e temperaturas em torno de 25°C.

Os maiores danos ocorrem quando a infecção ocorre cedo e a doença progride para as folhas acima da espiga ao redor do florescimento (período crítico da cultura), causando perda de área foliar (Figura 2 e Figura 3).

O patógeno causador da doença apresenta várias raças distintas. Nas regiões produtoras de milho no Brasil foram identificadas as raças fisiológicas de Et0, 2, 3, N, 1N, 2N, 3N, 12N, 23 N e 123N, através do uso de linhagens diferenciadoras (Gianasiel at., 1996).

Existem algumas fontes de resistência disponíveis para a Mancha de Turcicum em milho. Devido às mudanças das raças e à presença de várias raças distintas em algumas regiões, os programas de melhoramento da DuPont Pioneer ao redor do mundo precisam incorporar múltiplos genes de resistência no seu germoplasma. Através do uso de ferramentas de marcadores moleculares é possível incorporar esses genes nos materiais que estão sendo desenvolvidos, melhorando a resposta do híbrido à doença. Na presença do gene de resistência, dependendo do tipo de gene e da raça do patógeno, é comum observar-se a presença de um halo amarelado que restringe a expansão da lesão e minimiza a perda de área foliar (Figura 4).

 

A DuPont Pioneer realiza, todos os anos, avaliações de seus híbridos em diversas localidades, para observar sua reação à Mancha de Turcicum. O uso de diversos locais de teste, incluindo áreas de alta pressão da doença, é fundamental para avaliar os híbridos que estão sendo desenvolvidos. Nessa caracterização é usado um sistema com notas de 1 a 9, baseado na perda de área foliar. O escore "9" indica nenhuma perda de área foliar e o escore "1" indica perda de 95% da área foliar pela presença da doença (Figura 5). Através dessas avaliações, os programas de melhoramento comparam o escore de híbridos já conhecidos com os précomerciais. Esses dados auxiliam as decisões de avanço e de posicionamento de híbridos em cada região.
 

Manejo da doença

O manejo eficaz da doença passa pela integração de diferentes ferramentas, dentre as quais devemos considerar: escolha de híbridos resistentes, redução do inóculo inicial, época de plantio e o uso de fungicidas foliares.
 

Resistência de híbridos

A seleção de híbridos, baseada no escore de caracterização da doença, é uma importante etapa do manejo de Turcicum. O escore utilizado pela DuPont Pioneer reflete o desempenho esperado dos materiais frente às raças predominantes da doença em cada região. À medida que ocorrem modificações (inevitáveis) de raças do patógeno em determinada região, o sistema contínuo de testes dentro da pesquisa pode ajustar o escore para determinado híbrido, caso necessário. O uso de múltiplos genes de resistência pelos melhoristas, dentro de cada programa de melhoramento, tende a aumentar a estabilidade dos híbridos frente às mudanças de raça do patógeno.

Os híbridos são selecionados em relação a várias características agronômicas importantes, dentre as quais podemos citar: potencial produtivo, ciclo apropriado para a região, resistência de colmo, raiz, qualidade de grão, resistência a doenças, etc. Os dados avaliados devem ser consistentes em diversos locais para serem levados em consideração. O conjunto das características avaliadas determina qual o material mais apropriado para cada sistema de cultivo e cada condição de lavoura. Em se tratando de manejo de doenças, o posicionamento de híbridos é o método mais eficaz e barato de controle.



Redução do inóculo inicial

Devido ao patógeno causador da doença ser um fungo necrotrófico (sobrevive em tecido morto), os restos culturais são fonte de inóculo para as infecções iniciais. Neste caso, todo o manejo que resulte em diminuição da resteva tende a diminuir a quantidade de inóculo presente na área. Neste sentido, a rotação de culturas é fator importante para diminuir a pressão das doença.

Devido ao sistema de plantio direto, a manutenção da palha na superfície do solo é fator de fundamental importância, pelas inúmeras vantagens em relação à conservação do solo, água e ciclagem de nutrientes, já amplamente reconhecidas pelos produtores. Entretanto, essa informação se faz importante especialmente nas condições em que se fazem cultivos sucessivos de milho, prática comum em áreas de pivot do Brasil Central. Neste caso, o inóculo presente na área será maior e o produtor deve estar ciente de que será necessário evitar perdas pela ocorrência da doença com o uso de materiais mais resistentes e aplicação planejada de fungicidas foliares.
 

Época de plantio

A época de plantio pode ajudar os híbridos a escaparem da doença. Como comentado anteriormente, à medida que a doença progride, as lesões frutificam e novos esporos são lançados no ambiente. Assim, as lavouras estabelecidas no final da janela de plantio se desenvolverão em um ambiente com muito maior pressão de doenças que os primeiros plantios. Isso pode ser determinante para a sua severidade. Seguindo a mesma lógica, o ciclo dos materiais também pode auxiliar o escape da lavoura do período de maior pressão de doença. Plantando um material de ciclo precoce na abertura de plantio, é provável que ele atravesse o período crítico (ao redor do florescimento) antes que as demais lavouras da região, portanto, numa condição de baixa pressão de inóculo. O sucesso desta estratégia vai depender diretamente das condições ambientais vigentes na safra em questão.
 

Uso de fungicidas foliares

A viabilidade do controle químico de doenças e o seu retorno econômico depende de diversos fatores, dentre os quais os mais importantes são: susceptibilidade do híbrido, histórico de doença da região, momento da aplicação, especificidade do produto em relação ao patógeno e a qualidade de aplicação.

Em se tratando de manchas causadas por fungos necrotróficos, como o Turcicum, deve-se atentar que esse grupo de patógenos causa a morte do tecido vegetal através da expansão das lesões nas folhas. Nesta região de tecido morto não ocorre translocação de fungicida. Portanto, o efeito curativo da sua aplicação (depois que ocorre a infecção) é limitado e raramente eficaz. Em vários ensaios conduzidos pela DuPont Pioneer e diversas Fundações de Pesquisa e Universidades (dados não mostrados), observa-se maior eficiência de controle quando a aplicação de fungicida é feita de maneira preventiva ou logo no início do surgimento dos primeiros sintomas.

Na Safrinha, por se tratar de um sistema produtivo de alta pressão de doenças, é imprescindível o uso de fungicidas. Em áreas de alta adoção de tecnologia, os produtores usam a aplicação calendarizada de produtos como forma de proteger o potencial produtivo da lavoura, pois conhecem o histórico da região e sabem que terão perdas caso não apliquem.

Produtos registrados - A maioria dos produtos registrados para uso no controle de doenças no milho pertence ao grupo dos triazóis ou estrubirulinas. As moléculas pertencentes ao grupo das estrubirulinas atuam na respiração mitocondrial dos fungos e são mais efetivas nas fases iniciais da doença (na germinação dos esporos e nos processos iniciais de infecção). Já, os fungicidas triazóis atuam na biossíntese do ergosterol, um componente da membrana celular dos fungos. Estes podem controlar os fungos em fases mais avançadas do ciclo como o crescimento micelial e pré-esporulação. Desta forma, as estrubirulinas em geral têm maior ação preventiva, enquanto os triazóis têm maior ação curativa.

A combinação dos dois princípios ativos oferece a melhor proteção, uma vez que dentro do ciclo de infecção dos fungos, as fases de esporulação e colonização dos tecidos ocorrem, ao mesmo tempo, no tecido vegetal. Em outras palavras, existem lesões mais velhas que estão expandindo e novos esporos iniciando novas infecções.

Momento de aplicação - Do ponto de vista da fisiologia da planta de milho, é fundamental a proteção da área foliar durante o período crítico, onde ocorre a maior demanda energética da planta. Para manter as folhas protegidas durante tempo suficiente para que a planta possa produzir energia e translocar essa produção para os grãos, muitas vezes, é necessário adotar aplicações sequenciais de fungicidas, especialmente em condições de alta pressão de doenças como ocorre na Safrinha. Neste caso, um aspecto importante a ser considerado é o cuidado com o período residual dos produtos que, de maneira geral, se mantém ativos na planta por, no máximo, vinte dias, dependendo da quantidade de chuvas. Assim, o intervalo entre as aplicações deve respeitar este período para manter a planta protegida.

Seguindo esta estratégia, um manejo que vem sendo adotado com bons resultados é a aplicação de fungicidas por volta do estádio V8-10 (última passada do trator) e uma segunda aplicação em prépendoamento, usando-se a combinação de triazol e estrubirulina. Em áreas com histórico de alta pressão da doença pode-se adicionar mais uma aplicação neste tratamento, fazendo uma terceira pulverização 15 a 20 dias após a última (por volta de R3). Desta forma, consegue-se proteger a planta durante o período mais importante para definição do potencial de rendimento, com residual suficiente para garantir a proteção da área foliar. Além disso, protege a cultura de doenças com ocorrência tardia, como Mancha Branca e a Cercospora.

O momento de aplicação é fator fundamental para o sucesso do controle químico de Turcicum em milho. A pulverização de fungicidas deve ocorrer antes do aumento da severidade da doença, caso contrário, não há controle satisfatório. Muitas vezes, o agricultor não faz o monitoramento da lavoura e, quando decide aplicar o fungicida, a doença já está fora de controle. Neste caso, surgem dúvidas em relação à qualidade dos produtos aplicados e a perda do potencial produtivo da lavoura é inevitável. Portanto, para o manejo eficaz da doença, é importante o agricultor conhecer o histórico da sua região e integrar diferentes estratégias de controle, fazendo a escolha dos híbridos mais adaptados ao seu sistema de produção e monitorando a lavoura continuamente para tomar as decisões de manejo no momento correto.

Referências
Leroy Svec and Bill Dolenzal. Managing NorthernCorn Leaf Blight races shifts. Crop insights, vol 23, n. 8, 2013.
GIANASI, L.; de CASTRO, H.A. & da SILVA, H.P. Raças fisiológicas de Exserohilum turcicum identificadas em regiões produtoras de milho no Brasil, safra 93/94. Summa Phytopathologica, v.22, p. 214-217, 1996.​
Autor:
Douglas Jandrey
Fonte: