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Artigos

22/07/2014

Lavoura de milho que sofreu geada pode virar silagem?

Por João Ricardo Alves Pereira*
 
Nessa época do ano é muito comum ser questionado por produtores sobre procedimentos para ensilagem de lavouras de milho que foram comprometidas pela ação de geadas.
 
No primeiro dia após a geada o dano na planta de milho é identificado pela coloração verde escuro nas folhas, que em seguida passam a marrom, até palha. Isto se deve pelo extravasamento do conteúdo das células que foram rompidas quando houve a formação de cristais de gelo (congelamento). Esses sintomas são mais severos nas folhas superiores, jovens e com maior teor de água.
 
O estágio de desenvolvimento da planta na ocasião da geada irá determinar a qualidade da silagem. Quanto mais nova for a planta menor será sua qualidade, devido a menor participação de grãos, e mais difícil sua conservação, em função do maior teor de umidade. Na tabela 1 temos as diferentes fases de desenvolvimento da espiga e os teores de umidade do grão e da planta de milho.
 
Tabela 1. Estágios de desenvolvimento do milho
Fonte: Adaptado de Ritchie et al., (1993) e Mahana (1996). *“Cabelo” = estilo-estigma
 
O elevado teor de umidade (baixa matéria seca), geralmente, é o principal fator limitante na obtenção e na conservação da silagem da lavoura de milho que sofreu geada. A morte das folhas e a consequente perda da coloração verde induzem o produtor a pensar que a planta está perdendo água de maneira muito rápida e, por isso, deve ser ensilada o mais breve possível. No entanto, a maior parte da água concentra-se no colmo e, por isso, deve-se utilizar procedimentos mais precisos para se estimar o teor de matéria seca (MS) como, por exemplo, o uso de forno de microondas.
 
A ensilagem de plantas com um alto teor em água propicia um ambiente favorável para a proliferação de bactérias do gênero Clostridium que promovem fermentação indesejável, pois é um dos responsáveis pela produção de ácido butírico e a degradação de proteínas.
 
Na figura abaixo, estão correlacionados os teores de MS e pH da silagem com a segurança na manutenção da sua qualidade.
 
 
Segura: Silagem potencialmente segura.
Perigo: Risco de crescimento de Clostridium sp. e Listeriasp.
Fonte: Lallemand, 2003 – citados por Citado por Mari e Nussio (2004)
 
Nota-se que a elevação do teor de matéria seca da silagem, seja pelo corte mais tardio ou pela adição de algum substrato, possibilita maiores oportunidades para a obtenção de uma silagem de melhor qualidade.
 
A regulagem da ensiladeira é um dos pontos mais importantes e que merece maior cuidado por parte dos produtores. Geralmente, quando se corta a lavoura mais verde é muito comum ocorrer o entupimento do tubo de descarga da forrageira (“embuchar”). Isso ocorre porque as facas não estão afiadas e a regulagem de tamanho de corte está entre 3,5 ou 5mm (a que se usa sempre). O produtor pode até aumentar a regulagem de corte (7mm), mas é fundamental afiar as facas com mais frequência (duas vezes ao dia) e verificar se está havendo efetivamente o corte da planta e não o dilaceramento da fibra.
 
Embora o ponto de corte recomendado para o milho que sofreu geada seja, pelo menos, acima de 30% de MS, em algumas situações o produtor eventualmente precisa colher a lavoura com maiores teores de umidade (menos de 25% de MS), seja por questões operacionais (disponibilidade imediata de máquinas) ou mesmo por questões climáticas (chuvas logo após geada). Nessas situações sugere-se o emprego de alguns recursos de modo a garantir melhor qualidade no processo de conservação dessa silagem.
 
O mais recomendável seria o uso de produtos com a finalidade de se elevar os teores de matéria seca da silagem para níveis onde o processo de fermentação ocorra de maneira mais eficiente. Estes produtos também podem melhorar o valor nutritivo da silagem (fontes de energia e/ou proteína), seu consumo e digestibilidade pelos animais.
 
Os aditivos mais recomendados são o milho ou sorgo (moídos); farelos (soja, algodão, trigo, etc.); casquinha de soja ou polpa cítrica. Não é recomendado o uso de resíduos de pré-limpeza de grãos (soro de leite, etc.), pois esses produtos atuam de maneira negativa no processo de conservação.
 
Cabe lembrar que se forem utilizados aditivos de qualidade na silagem eles aumentarão o seu valor nutritivo e, obviamente, reduzirão as quantidades desses mesmos produtos ou até de ração posteriormente. O procedimento é simplesmente uma compra antecipada de insumo.
 
Os níveis de inclusão desses aditivos devem variar entre 8 e 20% (peso/peso verde de silagem). Obviamente as maiores inclusões são para silagens mais verdes. Caso seja possível a determinação rápida do teor de matéria seca pode-se calcular as quantidade de aditivo para que a mistura tenha em torno de 30% de MS. A distribuição do aditivo sobre a silagem é facilitada com o emprego de equipamentos distribuidores de calcário (foto).
 

O uso de capins passados, fenos velhos ou palhadas, embora tenham elevados teores de matéria seca tem efeito diluidor na qualidade da silagem e, na maioria dos casos, dificilmente são consumidos pelos animais posteriormente, implicando em custos adicionais ao produto. Produtos como cal hidratada, sal, calcário e outros que interferem na fermentação são totalmente dispensáveis.

Independente do ponto de corte (teor de umidade) a compactação é o segredo para a boa conservação. O tempo destinado à compactação deve ser sempre próximo ao de corte da lavoura.
 
A eficiência de uso de aditivos microbiológicos (inoculantes) está diretamente associada ao ambiente de ensilagem da forragem. Os microrganismos e, eventualmente enzimas, são mais efetivos quando os tores de matéria seca são elevados, conforme mencionado, e a eficiência da compactação.
 
Valor nutritivo da silagem que sofreu geada varia em função do estágio de desenvolvimento que se encontra a lavoura. Na pratica tem-se que quanto mais nova estiver a planta maiores serão os teores de fibra e menores os teores de energia (NDT). Recomenda-se que seja feita uma análise bromatológica.
 
Existem alguns questionamentos sobre a formação de compostos tóxicos em milho que sofreu geada, principalmente de nitratos. A grande maioria das observações feitas em condições de campo no Brasil indica que os níveis de nitrato estão dentro do mínimo tolerável, até porque um dos fatores essenciais para que se acumule nitrato na planta de milho são elevadas doses de adubo nitrogenado, fato raríssimo em nossas lavouras de safrinha. Vale ressaltar, também, que o processo de fermentação reduz em torno de 50% os níveis de nitrato. Os riscos maiores estariam associados ao fornecimento da forragem verde. Na tabela 2, são apresentados níveis de tolerância para as formas de nitrato presentes na forragem.
 
Tabela 2. Níveis de tolerância, em porcentagem da matéria seca, para as formas de nitrato presente na forragem.
Fonte: Chase e Overton (1999) – Dairy Nutrition Fact Sheet
 
Acredito que se o produtor seguir algumas dessas recomendações na ensilagem da lavoura de milho geada ele poderá empregá-la na alimentação de seus animais, com algum sucesso, mas a melhor dica para a próxima safra ainda é plantar mais cedo a lavoura de milho!
 
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*João Ricardo Alves Pereira é Zootecnista pela UNESP em 1991, mestre em Nutrição Animal e Pastagens pela ESALQ/USP (1995) e doutor em Zootecnia pela UNESP/Jaboticabal (1999). Atualmente é professor adjunto da UEPG-PR, no curso de Zootecnia, campus de Castro-PR, onde é Coordenador do Projeto de Extensão "Zootecnia no Campo". Além disso, João Ricardo é proprietário da Vitalle Nutrição Animal, Empresa de consultoria direcionada à produção e conservação de forragens.

 

Fonte: