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Artigos

23/04/2015

Manejo da resistência de insetos à tecnologia Bt

​Até 2007 o cenário do cultivo do milho no Brasil era de crescentes perdas por ataques de lagartas. Os problemas com lagarta-do-cartucho, lagarta-rosca, lagarta-da-espiga, lagarta-elasmo e broca-da-cana assustavam cada vez mais o produtor, que tinha pouca eficiência no controle dessas pragas com o uso de inseticidas. Rapidamente a tecnologia Bt na cultura do milho reduziu consideravelmente os problemas com insetos mastigadores, causando a errônea impressão que a tecnologia era à "prova de bala", ou seja, que nada mais precisaria ser feito e que todas as práticas de Manejo Integrado de Pragas poderiam ser deixadas de lado. Entretanto, com o passar do tempo e o uso intensivo da tecnologia, os problemas com a resistência de insetos começaram a aparecer.

A resistência pode ser definida como um fenômeno biológico e evolucionário que ocorre em resposta à pressão de seleção exercida pelos diferentes agentes de controle. A evolução da resistência consiste na seleção dos indivíduos resistentes que estão naturalmente presentes na natureza, levando ao aumento da frequência destes indivíduos ou de seus genes na população da praga, que leva eventualmente à limitação da eficiência do agente de controle. Diferente de inseticidas foliares, as plantas Bt exercem uma pressão bem mais elevada de seleção sobre as populações de insetos-praga que são alvo do controle devido à expressão contínua das toxinas inseticidas ao longo do período de desenvolvimento da cultura. Isso faz com que o risco de desenvolvimento de resistência de pragas às tecnologias Bts seja maior.

Modelos matemáticos permitem mostrar a evolução da resistência dos insetos à tecnologia Bt. Na Figura 1 podemos ver a taxa da evolução da resistência quando consideramos resistência monogênica (conferida por um único gene), autossômica (ambos os sexos podem transmitir a resistência), incompletamente recessiva (alguns indivíduos sobrevivem quando expostos a algum evento) e ausência de refúgio. A partir do momento em que a frequência de alelos resistentes chega a 3-5%, em 4 gerações, a população da lagarta-do-cartucho poderá chegar à frequência alélica de 50%. O agravante é que devido à caracteristica (ou genética) da resistência, quando começamos a ver danos no campo em uma tecnologia com média-alta dose, a frequência dos alelos já está provavelmente em torno de 10%, com a chance de que, com a contínua exposição à tecnologia, em poucas gerações, a população já estará com uma proporção muito maior de indivíduos resistentes.

 

A DuPont Pioneer, desde o lançamento dos primeiros Bts, já alertava para que as práticas do Manejo Integrado de Pragas (MIP) não fossem deixadas de lado e que, principalmente, a área de refúgio fosse estabelecida em todas as propriedades. O refúgio, que consiste no plantio de, no mínimo 10% da área com híbrido de milho não Bt, permite a sobrevivência dos insetos suscetíveis à tecnologia Bt. A preservação desses insetos suscetíveis possibilita o cruzamento com possíveis insetos resistentes, resultando em uma progênie de insetos suscetíveis.

Entretanto, poucos produtores plantaram a área de refúgio e quando o fizeram, as pulverizações em tais áreas eram constantes, visando obter a produtividade das mesmas. O resultado disso foi que mesmo quando presentes, em muitos casos as áreas de refúgio não funcionaram efetivamente na manutenção de insetos suscetíveis que iriam cruzar com os eventuais resistentes vindos das áreas Bt (Figura 2). Na ausência de insetos suscetíveis provenientes da área de refúgio, os eventuais insetos resistentes que sobreviveram à exposição ao Bt acasalaram-se entre si, possibilitando o relativamente rápido aumento dos alelos de resistência e aumento da quantidade de indivíduos resistentes no campo (Figura 3).

 
 

Agora que a quebra de resistência da lagarta-do-cartucho às tecnologias Cry1F (Herculex®I e OptimumTM IntrasectTM) é uma realidade, fica a dúvida: O refúgio ainda é necessário e benéfico para essa tecnologia? A resposta certamente é sim, pois existem outras pragas que são controladas pela proteína Cry1F como a broca-da-cana e que são passíveis de, ainda, desenvolver resistência caso não sejam aplicadas as melhores práticas de manejo, e não haja a manutenção de indivíduos suscetíveis através da adoção do refúgio estruturado. O refúgio é fundamental para a manutenção da eficiência desse controle. Além disso, todas as tecnologias hoje existentes no mercado terão a sua durabilidade aumentada e se beneficiam da adoção das melhores práticas de manejo e do plantio de áreas de refúgio.

Sabendo que as áreas de refúgio são parte do MIP e do manejo de resistência de insetos, como devemos proceder para fazer o uso correto?

Como já falado anteriormente, a baixa adesão do uso do refúgio ou, então, o maior número de aplicações de inseticida no refúgio, eliminando os indivíduos suscetíveis, resultou em um sistema de manejo de resistência não efetivo, o que favoreceu uma taxa de evolução da resistência mais acelerada.

 

Sabemos que apenas a adoção do refúgio não é suficiente para a manutenção da eficácia das tecnologias, sendo que deve ser considerado também o gerenciamento do uso de inseticidas na lavoura. Conforme a Figura 4, temos que pensar no refúgio como uma área fornecedora de insetos suscetíveis para que esses possam cruzar com eventuais insetos resistentes e o resultado ser indivíduos suscetíveis em maiores quantidades. Portanto, é necessário que se mantenha um diferencial de aplicações entre o refúgio e a lavoura Bt para que a taxa de aplicação de inseticidas no refúgio deve ser menor do que na lavoura. Basicamente temos que pensar em manejo da resistência na área de Bt e manejo de dano econômico na área de refúgio.

Além disso, fisicamente, o refúgio precisa cumprir alguns requerimentos como a utilização de híbridos com mesmo ciclo e o plantio a uma distância máxima de 800m conforme as sugestões apresentadas na Figura 5.

 

Como devo proceder para obter o maior potencial produtivo da minha lavoura e com menor risco de quebra de resistência a insetos? Embora em países tropicais o risco de desenvolvimento de resistência seja maior que em países de clima temperado como os Estados Unidos da América, a palavra-chave é o planejamento total da lavoura, levando em consideração as seguintes situações:
- Reserva de sementes convencionais para 10% da área para que possa estabelecer o refúgio, dentro do talhão, ou de preferência em faixas;
- Dessecação antecipada em 30 a 40 dias do plantio do milho com monitoramento para o uso de inseticidas quando necessário;
- Em pré-plantio, novo monitoramento para a existência de plantas daninhas remanescentes e aplicação de inseticida caso necessário;
- Tratamento de semente não somente para sugadores, mas também para o controle de mastigadores especialmente nas fases iniciais (V3-V4);
- Monitoramento para aplicações complementares de inseticidas considerando o nível de dano econômico no refúgio e manejo para resistência de insetos nas áreas de Bt;
- Usar inseticidas recomendados na dose de registro para a cultura do milho, considerando o estágio de desenvolvimento da lagarta e que lagartas menores que terceiro instar (menos de 1 cm) são mais fáceis de controlar;
- Fazer rotação do uso de princípios ativos de inseticidas;
- Não fazer pulverizações com baixo volume de calda e nas horas quentes do dia.

Agora, depois de um bom tempo do lançamento das tecnologias Bt e com problemas de resistência já confirmados, fica mais fácil olhar para trás e traçar novas estratégias. Entretanto, as tecnologias Bt devem ser consideradas apenas uma ferramenta a mais no controle de pragas. Devemos retomar urgentemente as boas práticas do MIP para conseguirmos extrair o máximo potencial de produção de um híbrido com o uso efetivo da tecnologia por mais tempo.

 
 
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