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Artigos

10/08/2006

É difícil produzir silagem de milho de qualidade?

Muitos pecuaristas não usam silagem de milho na alimentação do rebanho bovino alegando que seu custo é muito alto. Será verdade? Primeiro é necessário lembrar que a maioria desses produtores e mesmo alguns técnicos não têm o hábito de contabilizar a produção de leite ou carne por área quando avaliam opções forrageiras. Segundo, a maioria calcula o custo de implantação da lavoura e se esquece dos custos operacionais para colher, transportar e armazenar a silagem. Custos que, numa lavoura de baixa produtividade (30 t de matéria verde/ha), chegam a 30% da silagem. Além disso, não levam em conta a diferença de desempenho dos animais em função da qualidade.

Normalmente, o que eleva o custo da silagem de milho é a falta de planejamento da lavoura. Talvez venha daí a noção, errada por sinal, de que o pecuarista não é um bom agricultor. Para baixar custos, ele escolhe híbridos mais baratos, diminui a quantidade de sementes e fertilizantes e, em certas ocasiões, destina para silagem as áreas que tiveram sua produtividade de grãos comprometida ("as piores áreas da fazenda"). Na verdade, deveria trilhar caminho inverso, elevando a produtividade, de modo a diluir ao máximo os custos operacionais. Técnicas como redução de espaçamento entre linhas de plantio e aumento de população de plantas são boas alternativas, garantindo aumentos significativos na produtividade da cultura do milho em diversas regiões do País.

Produtividade - Para compreender melhor o peso da produtividade sobre os custos da silagem de milho,observe a tabela 1. Na primeira coluna, apresento uma lavoura com 30.000 kg de massa verde/ha e produção de grãos estimada em 5.000 kg/ha. Na segunda coluna, outra lavoura que fornece 60.000 kg de massa verde/ha e 10.000 kg de grãos/ha. Em virtude das maiores exigências agronômicas, a segunda lavoura é tida pelos pecuaristas como uma silagem de "alto custo", especialmente porque exige maior investimento em fertilizantes (os gastos com semente têm pouco impacto, representando somente 6% a 7% do custo total das duas silagens). Ou seja, trata-se de uma impressão superficial, equivocada.



Ao considerar somente o custo de produção da massa verde colhida, o pecuarista esquece a qualidade da forragem, principalmente a energia produzida por hectare. Cabe lembrar que a silagem de milho de maior produtividade de massa verde também apresenta uma elevada produtividade de grãos, que representa quase metade da matéria seca (MS) da silagem e, como sabemos, esta é a principal fonte de energia da alimentação animal.

A tabela 2 é bastante ilustrativa, pois compara as duas lavouras quanto à produção de energia (sob a forma de Nutrientes Digestíveis Totais - NDT), constatando uma diferença gritante: 7.854 kg/ha. O que isso significa? Que poderíamos estar "colhendo" mais leite ou carne por hectare. Importante ressaltar que um boi de 450 kg de peso precisa consumir 10,3 kg de NDT para ganhar 1 kg/dia e uma vaca demanda 8,2 kg de NDT para produzir 10 litros de leite/dia. O pecuarista deve entender que, optando por outros volumosos ou produzindo silagem de baixa qualidade, terá de adquirir energia (NDT) para produção de leite ou carne na forma de ração, milho, sorgo ou farelos, cuja viabilidade depende de uma boa avaliação técnica. É exatamente essa falta de assessoramento que leva muita gente a procurar, quase sempre sem sucesso, aqueles tais "resíduos" da agroindústria para viabilizar confinamentos e reduzir custos.

 

 

Textura dos grãos - Outro fator muitas vezes apresentado como limitante para a produção de uma boa silagem é a falta de equipamentos (ensiladeiras) adequados. Alega-se que, se a lavoura for cortada no ponto ideal, com teor de matéria seca entre 33 e 37%, as partículas ficam grandes, não se consegue uma boa compactação e, principalmente, perde-se grande parte dos grãos nas fezes dos animais. Uma das possíveis alternativas, defendida por alguns nutricionistas, é que os híbridos de textura de "grão mole" (dentados) seriam mais adequados para produção de silagem, sob a alegação de que teriam maior digestibilidade em relação aos de "grão duro", o que diminuiria sua presença nas fezes dos animais.

Trabalhos realizados na Universidade Federal de Lavras mostram que, no ponto ideal de corte do milho para silagem de planta inteira (50% da linha do leite), não há diferença alguma favorável ao grão de textura mole, veja a tabela 3. A maior digestibilidade desse tipo de grão se dá no ponto de maturação fisiológica, que não é ponto de colheita para silagem de planta inteira e sim de colheita de grãos. Mas então por que os produtores de grãos não plantam e colhem milhos de textura mole, de maior digestibilidade? Porque os híbridos de milho com essa característica têm baixa capacidade de adaptação por serem oriundos de material genético temperado, portanto menos defensivos, principalmente com relação às doenças. Ou seja, agronomicamente essas lavouras seriam de baixíssima produtividade. Voltaríamos à situação de silagem cara e de baixa qualidade.



Ponto de colheita - Outro procedimento que o pecuarista adota com base nas suas observações empíricas ou de algumas recomendações técnicas, ambas infelizmente incorretas, é a antecipação do momento de corte da lavoura. Acreditam que, se cortada mais verde, a planta tem uma melhor picagem, permite uma boa compactação e os animais consomem mais. No campo, ouve-se frequentemente: "Começo cortando a lavoura antes do ponto, passando pelo momento correto e terminando no ponto passado, o que na média fica bom". Isso deve ser evitado ao máximo, pois dois manejos incorretos para um correto não garantem um produto final de qualidade.
 

Quando se corta a planta de milho com o grão ainda leitoso, colhe-se somente o equivalente a 50% do potencial produtivo de grãos e 75% da forragem. Já no ponto ideal de colheita, quando a linha do leite está na metade do grão e a planta apresenta teor de matéria seca próximo a 35%, colhe-se 95% dos grãos e 100% da forragem, confira na tabela 4.



Quanto ao corte inadequado da planta, partículas grandes, ou à menor quebra dos grãos, que aparecem inteiros nas fezes, a solução não está na troca do híbrido ou na antecipação do corte, mas em procedimentos simples como afiar as facas de corte da ensiladeira duas vezes ao dia e aproximá-las das contra-facas. Essas medidas, que não têm custo algum, resolvem facilmente esses problemas. Existem ensiladeiras disponíveis no mercado que são de ótima qualidade, o que falta é o pecuarista conhecer um pouco melhor e, principalmente, utilizar os recursos disponíveis, fazendo a manutenção adequada dos equipamentos.

Os grãos que aparecerem nas fezes devem estar, ao menos, quebrados ao meio, indicando que houve ação das facas, pois eles representam aquela fração que não pode ser digerida pelo animal (algo em torno de 35% do total presente na silagem - conforme exposto na tabela 3), da mesma maneira como acontece com outros alimentos. "Devemos primeiramente verificar se há grãos de milho na comida dos animais para depois ver se há nas fezes".

Conclusão

A redução dos custos de produção de uma silagem não passa pelo menor uso de adubo, por sementes de menor qualidade ou pela queda de produtividade. Os ganhos se dão por aumento de eficiência no processo, reduzindo-se as perdas em cada etapa, da lavoura ao animal. O pecuarista vai obter resultados bastante significativos com procedimentos simples, como regulagem de máquinas, dimensionamento do silo, boa compactação da silagem e a retirada correta do produto. Quanto ao pecuarista não ser bom agricultor, não passa de preconceito ou justificativa para a falta de eficiência de alguns, que ainda não se engajaram no processo produtivo. Mas isso certamente vai mudar rapidamente, pois já somos os maiores produtores mundiais de carne bovina e nossa produção e exportação de lácteos cresce significativamente a cada ano.​

Autor:
João Ricardo Alves Pereira Professor adjunto do Depto. de Zootecnia da Universidade Estadual de Ponta Grossa (PR)
Fonte: