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Artigos

19/07/2007

Oportunidades no agronegócio

A agricultura Brasileira conheceu o céu e o inferno nos últimos cinco anos. Tivemos lindos dias de mais de R$ 50,00 o saco de soja, sob a benção de um Real superdesvalorizado, e a ilusão que poderíamos fazer todos os investimentos e assumir todas as dívidas; e tivemos muitas noites sem dormir quando compramos insumos com dólar bem mais alto que o da hora da venda da produção, a ferrugem e a seca maltrataram as lavouras, e nos demos conta que não dava nem para pagar o custeio do ano, que dirá as parcelas dos financiamento de investimentos.

Porém, quando a coisa parecia totalmente feia e sem solução, eis que nova e poderosa luz surge no horizonte, trazendo renovadas esperanças e prometendo grandes transformações no setor agrícola brasileiro. Desta vez, o que está por trás de tudo são dois grandes problemas da civilização, e que trarão conseqüências diretas para o agronegócio brasileiro:

1) a instabilidade política das regiões de maiores reservas de petróleo do mundo,especialmente Oriente Médio e Venezuela; e

2) o assustador crescimento do aquecimento global.

Esses dois aspectos levam a uma inevitável e duradoura aposta, que o mundo todo está fazendo na utilização cada vez maior de biocombustíveis como o álcool da cana no Brasil, o etanol de milho nos EUA, e o biodiesel à base de soja, canola, mamona, etc. Outra área que avança em paralelo é a dos biomateriais em que a idéia é produzir, a partir do refino desses biocombustíveis, produtos que hoje são feitos a partir do refino do petróleo. Lembrem, essas mudanças não se devem somente ao atual ou futuro preço do petróleo, mas principalmente a necessidade de usar combustíveis “limpos”, ambientalmente mais seguros, que não contribuam com o aquecimento global. Essa necessidade é ireversível.

É por conseqüência desses fatos que os preços de milho dispararam no mercado mundial, puxados pela demanda de milho para álcool nos EUA. Na semana que escrevo esta matéria, o preço de milho em Chicago alcançou o maior nível dos últimos 10 anos, tendo os EUA acabado de colher a sua segunda maior safra da história. Já são mais de 100 usinas no centro-oeste americano que deverão consumir ano que vem, o equivalente a toda safra brasileira de milho. Some-se a isso o contínuo crescimento da população mundial, notadamente na Ásia, e o crescimento econômico de países como China e Índia, que permitem uma parcela cada vez maior dessas populações se alimentarem de proteína animal, o que em última análise também aumenta o consumo de milho.

Quando o aumento de preços de uma commodity vem de um aumento de demanda sustentável, como é o caso do milho no momento, e não por uma quebra de safra em algum importante país produtor, esses preços tendem a se manter fortalecidos por bem mais tempo. Esse quadro está levando os EUA a plantar em 2007 área de milho 10% maior que no ano passado, tirando áreas do algodão, trigo e soja. Esta última deve perder de 2,0 a 3,0 milhões de ha. Essa diminuição da área de soja nos EUA, em 2007, mais a pressão de demanda, pelo menos psicológica, gerada pelas perspectivas do biodiesel, também ajudaram a fortalecer os preços da soja em Chicago, que se encontram em patamares bem mais altos que há um ano.

Pelas mesmas razões expostas, a cultura da cana-de-açúcar tende a dobrar de área no Brasil nos próximos 10 anos. As usinas, tradicionais e novas, com capital nacional e estrangeiro, embaladas pelo preço e perspectivas de demanda de álcool e açúcar, espalham-se a todo vapor pelo Brasil Central. Já são quase 100 usinas em construção ou em planejamento. Regiões">em planejamento. Regiões como oeste paulista, partes do MS e MT, sudoeste goiano e partes do Triângulo Mineiro, além de algumas áreas do Centro-Norte, estão todas na mira das usinas.

O que se pode concluir de tudo isso?

A primeira conclusão é que a coisa melhorou para a agricultura de grãos, mas ainda temos alguns riscos próximos no horizonte, notadamente uma possível maior valorização do Real durante 2007 e os possíveis “apagões logísticos” localizados. No médio prazo, temos três grandes assuntos a resolver: a situação das dívidas pendentes com fundos públicos e privados; a necessidade urgente de institucionalizarmos um seguro agrícola amplo e acessível, até para diminuir esta contínua acumulação de dívidas não pagas devido a quebras climáticas; e a liberação mais acelerada dos transgênicos, notadamente o caso do milho Bt. Não faz sentido produtores americanos e argentinos terem acesso a essa tecnologia há mais de cinco anos enquanto os brasileiros ainda são obrigados a gastar mais de R$ 120,00/ha a cada safra, fazendo duas ou três aplicações de inseticidas para lagarta do cartucho e ainda termos alguma perda de produtividade ou qualidade de grão.

Segunda conclusão: deve aumentar muito a demanda internacional pelo milho brasileiro; veremos as grandes traders se envolverem cada vez mais com compras e exportação de milho no Brasil e isto pode trazer maiores oportunidades de hedge e fixação de preços, assim como acontece com a soja; isso deve também criar maior interesse das indústrias consumidoras de milho no Brasil de tentar organizar de vez o mercado de milho local.

A terceira grande conclusão é que pode estar por vir aí uma grande reorganização geográfica da agricultura brasileira. Ela será liderada pelo avanço da cana, cujo retorno econômico é muito maior que as culturas de grãos, mesmo valorizadas, e envolverá a soja, o milho e a pecuária de corte. A perspectiva é que 5 a 6 milhões de hectares no Brasil Central devam virar cana nos próximos 10 anos, notadamente áreas hoje ocupadas por lavouras de grãos e por pastagens. O milho, com o contínuo aumento de produtividade e alavancado pelo provável aumento das exportações, deverá buscar lugar em áreas de altas produtividades do Sul do Brasil, em áreas mais próximas dos portos, nas áreas irrigadas fora de época e na safrinha. A soja, que também deverá ceder espaço para a cana, continuará abrindo fronteiras ao Norte, desde que fora da bacia amazônica, entrará em áreas de pastagens não levadas pela cana e, também, terá mais chances de se manter onde a safrinha seja viável. Caso a soja e o milho não consigam recuperar as áreas que deverão perder para cana, essa diminuição de área com certeza será mais um reforço nos preços destes cereais. A pecuária de corte ou vai buscar abrigo em áreas mais distantes, mas também que não incluam a bacia amazônica, ou intensificar ao máximo o manejo para poder se manter em áreas que serão procuradas para cana e para soja/milho.

Para concluir é importante lembrar que, por mais que as perspectivas sejam positivas, fatos não previstos podem sempre vir a estragar a festa e ainda há sérios problemas não resolvidos do passado. Por isso, deve-se combinar, cada vez mais, as práticas avançadas de manejo, que visem maximizar a rentabilidade, com a precaução e conservadorismo nas análises financeiras na hora de novos investimentos, e trabalhar sempre com um olho na lavoura e outro no mercado.​

Autor:
Daniel Glat, Diretor da Pioneer Sementes para América Latina
Fonte: