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Artigos

12/12/2008

Um ano marcado pela alta volatilidade de preços

Estamos finalizando o segundo trimestre de 2008 e a comparação com 2007 é inevitável. O ano passado foi marcado pelo estabelecimento de novos e altos patamares de preços das principais commodities agrícolas. Soja, milho e trigo atingiram marcas históricas de preços, superando em muito a mais otimista das expectativas. Em 2007, os preços das commodities foram elevados pela grande demanda de alimentos e pela inevitável busca por fontes de energia renováveis. O fato provocou drástica redução na relação estoque/consumo de grãos em todo o mundo. Este cenário foi sustentado pelo aquecimento da economia mundial, promovido fundamentalmente pela consolidação econômica da Ásia, em especial China e Índia. Estes países mantiveram o aumento do PIB muito próximo de dois dígitos, cujo ciclo já dura quase uma década. A China atingiu um crescimento do PIB de 11,4% no último ano, mantendo-se em quarto lugar na economia mundial. Ela praticamente chega a um "empate técnico" com a economia alemã, que é a terceira do mundo, permanecendo o Japão em segundo. Todo este cenário internacional favorável impactou positivamente no Brasil, onde o agronegócio bateu recorde em suas exportações pelo sétimo ano consecutivo. A balança comercial brasileira ficou com saldo aproximado de US$ 49,7 bilhões, superando em 16,3% o superávit de 2006, uma conquista digna da eficiência produtiva, já que a desvalorização do dólar e a nossa ineficiência logística insistem em conspirar contra. E o campo mantém o otimismo de, pela segunda safra consecutiva, concluir a produção e a comercialização com renda positiva.

Assim avaliamos que a safra 2007/2008 será finalizada com "relativo" sucesso. Relativo devido ao fato de conquistarmos um alto faturamento, mas com rentabilidade abaixo do potencial apresentado. Isto ocorre por causa de fatores "extra campo" como valorização do real e logística deficitária, que irão consumir boa fatia do lucro do produtor. Apesar desta constatação, de um lado fica fortalecido o sentimento de dever cumprido por parte do agricultor onde a tecnologia e a gestão da propriedade foram adotadas de maneira eficiente. A resposta pode ser atestada pela produção recorde de 136,4 milhões de toneladas de grãos estimadas pela Conab. Por outro lado, fica um pequeno sentimento de frustração, já que todo o cenário mundial conspirou a favor e o saldo da lucratividade ainda não será suficiente para recuperar as perdas das safras de 2005 e 2006 e permitir amortização das dívidas do passado.

Agora estamos planejando a safra 2008/2009 e a pergunta que não quer se calar no campo é: "O ciclo de altos preços, iniciado em 2007, é sustentável?" Esta questão, inicialmente analisada pela relação estoque/consumo mundial de grãos, deixa-nos mais otimista porque a tendência é de baixos índices e estoques apertados. Contudo, existe outro fator influenciador na formação dos preços e que está intimamente relacionado com uma infinidade de variáveis, o que proporciona altíssima volatilidade. Estamos falando do mercado especulativo de ações ou, simplesmente, fundos especulativos. Mercado este que tem sido altamente impactado pela incômoda recessão dos EUA. Esta recessão provocada pela crise imobiliária, desencadeou todo um nervosismo no mercado de ações e de câmbio porque a economia americana é a maior do mundo, sendo responsável por 30% do PIB mundial.

E, ao avaliar o primeiro trimestre de 2008, já podemos inferir que este último será o fundamento que irá ditar as regras de preços das principais commodities no mundo. Consolidando ou não as boas rentabilidades sugeridas pelo cenário promissor, os baixos estoques de grãos continuarão em todo o mundo, creio eu, por alguns bons anos. Assim, fica o alerta de que 2008 será um ano marcado pela alta volatilidade de preços, atenuada por patamares sustentáveis acima das médias históricas. Todo este cenário exigirá do produtor um acompanhamento praticamente diário de toda esta flutuação. Isto porque as oportunidades de fechar bons contratos e oportunizar boas lucratividades surgirão como "relâmpagos" ao longo do ano.

 

Cenário da soja
Aproxima-se a divulgação do relatório final do USDA, que informará a conclusão do plantio das áreas agrícolas dos EUA para 2008. Esta aproximação gera especulações e potencializa a volatilidade dos preços. Estes fatos estão relacionados com a divulgação de os plantios terem sofrido significativos atrasos, o que deve comprometer a produtividade e alterar as expectativas iniciais de áreas plantadas de todas as culturas, em especial milho e soja. Mas, já é sabido que a área de soja deverá crescer 18%, ficando em torno de 30 milhões de hectares. Contudo, mesmo que isto aconteça, a projeção da relação estoque/consumo final é de 6,0%, ficando abaixo da média dos últimos 5 anos, que é de 10,66%. Isto indica que, realmente, 2008 será um ano de altos preços em CBOT. Vale destacar que com estoques bem ajustados, em caso de seca os preços podem atingir patamares imprevisíveis e provocar imensa turbulência no complexo mundial de soja. A China, mesmo focada em conter a inflação, mantém a posição de importar 34 milhões de toneladas da América do Sul. Por mais que Brasil e Argentina ampliem suas produções, não será suficiente para atender os chineses. Desta maneira, a soja, em forma de matéria-prima, torna-se um grão com valor imensurável. Também vale registrar que o óleo de soja está com preços crescentes desde 2005. Em novembro de 2007, ultrapassaram pela primeira vez na história US$ 1.000,00 por tonelada. O farelo, apesar de não atingir os níveis históricos, mantém-se em expressivos patamares acima de US$ 320,00 por tonelada. No mercado interno só não bate recordes impedido pela forte valorização do real junto ao dólar. Outro ponto que pode influenciar fortemente a alta da soja é a crescente demanda por biocombustíveis na Europa. Neste continente onde os subsídios estão sendo cortados e as principais matérias-primas, como a canola, tornam-se economicamente inviáveis, pode obrigar os europeus a importarem óleo de soja ou biodiesel, ampliando a demanda de soja em todo o mundo. Portanto, podemos deduzir que, sob o aspecto estoque/consumo, o cenário internacional da soja continuará extremamente favorável e com boas perspectivas de altas ao longo do ano. Por outro lado, sem poder dimensionar o tamanho da crise americana e seus desdobramentos, principalmente no mercado de ações e na moeda americana, fica claro que a inevitável volatilidade do mercado dificultará a tomada de decisão. Nele (mercado), "travar" os custos e buscar o lucro continua a regra básica de proteção e segurança. Teremos que "acompanhar para lucrar".

 

Cenário do milho
Em 2007, ouvimos duas frases que simbolizam bem o novo cenário do milho tanto no Brasil quanto no mundo. A primeira frase foi: "Milho deixou de ser comida de pobre para ser combustível de rico". Esta foi a expressão que melhor representou a caminhada norte-americana rumo à produção de etanol a base de milho. Foi esta caminhada que promoveu verdadeira revolução na cultura do milho no mundo. Os americanos, por exemplo, destinaram cerca de 30% do milho produzido em 2007 para produção de etanol. Com isto consumiram mais de 80 milhões de toneladas neste segmento e impulsionaram os preços para níveis inimagináveis acima de US$ 5,0/bushel. Este preço foi favorável ao produtor de milho em todo o mundo, mas hoje estrangula a margem das usinas americanas de etanol, levando-as a um valor próximo de zero. Elas estimavam que a matéria-prima (milho) ficaria ao redor de US$ 150,00/ton e agora está acima de US$ 230,00/ton. Dentro deste cenário, são 3 os fundamentos que sustentam as 197 usinas americanas: preço do barril de petróleo acima de US$ 100,00, lembrando que a marca histórica foi atingida em maio de 2008 com valor superior US$ 135,00/barril, subsídio do governo em torno de 12 cents/litro e barreiras comerciais para importação do álcool brasileiro. Tudo isso, pelo menos em médio prazo, não deve mudar. Outro aspecto que não muda é a paixão americana por carros de alto desempenho. Diante disto podemos imaginar o que deve consumir um carro V8 movido a etanol e entender porque George Bush exige que toda a gasolina consumida nos EUA seja misturada com 20% de etanol até 2017. Esta mistura representará uma demanda de, aproximadamente, 300 milhões de toneladas ou o equivalente a quase toda a safra americana de milho produzida em 2007.

Para 2008, a demanda mundial de milho continuará aquecida, os estoques ainda mais baixos, principalmente nos EUA, onde a relação estoque/consumo prevista é de 4,8% contra a média de 14,8% dos últimos 10 anos. Até o momento nenhuma fonte alternativa de energia foi considerada economicamente viável para produção em alta escala. Ainda estima-se que haja uma redução de 8% na área plantada em 2008 comparada com 2007, reforçando que o plantio realizado até meados de maio passado estava 15 pontos abaixo da média dos últimos cinco anos segundo USDA. Este contexto leva-nos a estimar uma inevitável perda de produtividade. Assim concluímos que o maior desafio do milho brasileiro será manter ou superar as exportações recordes de 2007, que foram de 11,9 milhões de toneladas. Para tanto, uma recuperação da moeda americana frente ao real faz-se urgente. Isto porque hoje não conseguimos viabilizar a exportação com o dólar abaixo de R$ 1,70, o que representa uma tonelada FOB acima de US$ 240,00 base Sul/Sudeste do país. Este contexto tira a nossa competitividade com a Argentina, os EUA e, em especial, com o aquecido mercado interno puxado pelas altas demandas do complexo de carnes. Este complexo inicia 2008 com alta de 39,6% no primeiro bimestre, com crescimento de 8,7% no volume exportado e de 28,4% nos preços internacionais, consolidando toda a exportação do agronegócio brasileiro com crescimento de 24,9% no setor, quando comparado com o mesmo período de 2007.

Assim concluímos o cenário do milho com a outra frase que simbolizou o produto em 2007: "Nunca imaginei ver meus frangos comerem milho de R$ 30,00 o saco", disse-me um produtor no Paraná. E ele mesmo emendou: "Mas também não sabia que rico estava comendo tanto porco e tanto frango". Ele refere-se às altas nas exportações destas proteínas e aos altos valores internacionais atingidos, em que a tonelada de frango já chegou a ser exportada acima de US$ 1.600,00. É realmente uma nova realidade e reforça a reportagem de capa da revista americana "The Economist", de dezembro de 2007, que tinha o seguinte título: "The end of cheap food". Traduzido num bom português, significa: "O fim do alimento barato". Isto é fruto da ocidentalização do oriente. Entretanto, do ponto de vista da oferta de milho, o mundo pode se tranquilizar. É que o Brasil possui todos os fundamentos para verticalizar a sua produção, principalmente agora que teremos, mesmo com atraso, o tão sonhado direito de plantar milho transgênico. Isto trará expressivo incremento de produtividade, segurança e qualidade em toda a cadeia produtiva, sem contar os ganhos ambientais e econômicos associados. Este quadro encontra-se aliado à genética e à tecnologia de vanguarda já adotada por aqui, CONSOLIDANDO DEFINITIVAMENTE O MILHO como a cultura de grãos mais rentável economicamente no país.

O produtor brasileiro continua evoluindo na sua incomparável capacidade produtiva e de superação. Entretanto, a retomada definitiva de lucratividade só não se efetiva porque dois grandes "gargalos" insistem em "participar" do lucro do produtor, que são: LOGÍSTICA DEFICITÁRIA e CÂMBIO. E, ainda, que não se esqueça das altas impressionantes dos fertilizantes e do "fantasma" do endividamento. Contudo, "como todo bom brasileiro, nosso produtor não desiste nunca". E se resgatarmos um fluxograma simbólico do ciclo do mercado, divulgado pela Céleres Consultoria, chegamos a outra conclusão:
2004: ABUNDÂNCIA
2005: ENFRAQUECIMENTO
2006: CRISE
2007: AJUSTE
2008: SUPERAÇÃO
2009: FORTALECIMENTO
2010: ABUNDÂNCIA

E, se estes "gargalos" forem superados com o PAC, poderemos antecipar este ciclo e atingir a abundância ainda em 2008.​

Autor:
Francisco Sampaio
Gerente de Negócios e Treinamento da Pioneer Sementes
Fonte: