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Notícias

23/07/2013

Mato Grosso deve 71 milhões toneladas de alimentos em 10 anos, prevê Rui

O sul-mato-grossense de Campo Grande, Rui Otoni Prado, é um daqueles produtores rurais dedicados. Levanta antes de o galo cantar e, geralmente, só vai pra cama depois de atender todas as demandas da fazenda em Campo Novo do Parecis, distante 380 quilômetros de Cuiabá, onde cultiva soja, milho, girassol e desenvolve engorda de bovinos no sistema de integração agricultura-pecuária. Na rotina do dia a dia, ele divide o tempo na gestão e articulação estratégica da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (Famato) . No comando da maior entidade representativa rural do Estado, Rui Prado está em seu segundo mandato. Médico veterinário por formação, ele costuma dizer que a ousadia e o espírito empreendedor são fundamentais para crescer e se manter no topo. Casado com Cátia Boger Prado e pai de três filhos, teve suas qualidades de líder reconhecidas ainda jovem, nos dois mandatos em que presidiu o Centro Acadêmico de Medicina Veterinária da UFMS. É um dos fundadores da Aprosoja-MT e também comandou a entidade no período de 2005 a 2007, quando foi eleito para presidir a Aprosoja Brasil no período 2007-2010. Além da Famato, atualmente também preside o Conselho Deliberativo do Senar-MT e do Senar Nacional, o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea), a Câmara Setorial da Soja do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e o Comitê Assessor Externo (CAE) da Embrapa Soja de Londrina-PR. É também membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), presidido por Dilma Rousseff. Rui Prado falou com exclusividade para RDM, principalmente sobre cenários futuros.
 
O senhor acaba de tomar posse para um novo mandato na presidência da Famato. Quais atitudes inovadoras os produtores rurais terão da entidade nessa gestão?
 
Nosso objetivo principal para o próximo mandato é fortalecer ainda mais os sindicatos rurais. Temos 87 sindicatos espalhados em Mato Grosso e é por conta deles que a Famato vem se destacando no Estado e nacionalmente. Os sindicatos representam o nosso elo com o produtor rural e queremos ampliar o envolvimento dos produtores no sistema sindical. Para identificar as principais demandas dos sindicatos, reformulamos neste ano o Núcleo Sindical da Famato e estamos com uma equipe percorrendo os municípios para verificar o que os sindicatos mais precisam para atrair novos associados. Mas, de antemão, além deste trabalho, vamos continuar empenhados em desenvolver os principais temas que envolvem o setor produtivo do Estado, como a logística, qualificação rural, meio ambiente, questões tributárias, indígenas, fundiárias e trabalhistas.
 
Os problemas do setor rural são conhecidos e as soluções caminham a passos lentos. O que falta para que a cadeia produtiva mais importante na sobrevivência da humanidade obtenha respostas mais rápidas por parte do poder público?
 
Um dos nossos principais desafios é a logística e o poder público não consegue acompanhar a velocidade com que aumenta a nossa produção. Para se ter ideia, nos últimos 50 anos a produção de grãos no Brasil cresceu 10 vezes em volume e apenas três vezes em área. No mesmo período, nossa malha viária praticamente permaneceu a mesma. Tudo indica que a solução passa pelas parcerias público-privadas. Serão elas que trarão os investimentos necessários para resolvermos os problemas de infraestrutura, especialmente de Mato Grosso.
 
Não há mais como depender apenas do modal rodoviário...
 
Exato. Precisamos de investimentos em ferrovias e hidrovias. Somente assim conseguiremos baratear os custos de produção e reduzir os impactos ambientais. Vale lembrar também que toda a sociedade ganhará com as melhorias em infraestrutura.
 
O setor rural já é bem articulado no Congresso Nacional e alguns ministérios. Existe mobilização para ampliar essa participação no Executivo e Legislativo nas próximas eleições?
 
Como a Famato é uma entidade de representação de classe, seu foco de atuação concentra-se em representar os interesses do produtor rural, ou seja, apresentar seus desafios e oportunidades aos Poderes. Com o tempo, aprendemos a lidar melhor com o Executivo e o Legislativo, o que não significa que as coisas ficaram mais fáceis, haja vista a aprovação do Novo Código Florestal e suas inúmeras idas e vindas. Com o tempo, vimos que não adianta só falar das demandas, precisamos ter também representantes nesses Poderes. Já estamos pensando no próximo ano. Queremos ter em mãos as principais reivindicações do setor e apresentá-las a todos os candidatos. Independentemente de quem ganhe, devemos ter todas as informações importantes.
 
O grande desafio do setor, além de manter-se eficiente dentro e fora do campo, é manter-se forte na articulação política...
 
Tudo é resultado do nosso amadurecimento como cidadãos. Considero importantes as articulações políticas, tanto realizadas pelas entidades como pelos cidadãos de uma maneira geral. Prova disso é o que estamos vendo com as mobilizações nas ruas do Brasil. As articulações são necessárias para que os nossos representantes políticos saibam o que almejamos e atendam nossas necessidades. No caso do agronegócio foi formada a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), cujo objetivo é estimular a ampliação de políticas públicas para o desenvolvimento do agronegócio nacional. Estamos diretamente em contato com estes representantes porque acreditamos que eles podem fazer coro, falar pelo setor e agir para atender nossas reivindicações no Congresso Nacional.
 
Exemplos dessa articulação estratégica podem ser mostrados nas questões que envolvem invasões de fazendas pelo Movimento dos Sem Terra ou nas questões que envolvem indígenas. Como a Famato atua nessas questões?
 
Nas questões indígenas a Famato está ativamente se articulando estratégica e politicamente para a aprovação da PEC 215, que transfere ao Congresso Nacional a prerrogativa de criar e ampliar terras indígenas no país. Em junho, participamos de uma mobilização nacional liderada pela FPA e que contou com o apoio de várias Federações de Agricultura e Pecuária do Brasil. Em Mato Grosso, a Famato organizou esta mobilização que reuniu aproximadamente 800 pessoas no entroncamento da BR-364/163, em Cuiabá. Manifestamos pacificamente para criticar a política indigenista do país. Queremos que a Funai pare de agir como se fosse os três poderes. Ela emite as instruções normativas como Poder Legislativo, demarca como Poder Executivo e cuida dos recursos administrativos como o Judiciário. Não podemos mais aceitar que milhares de famílias que produzem e contribuem com o desenvolvimento da economia nacional continuem perdendo suas terras e histórias de vida por conta dos interesses obscuros da Funai.
 
A Famato é uma das entidades que promovem discussões e apontam soluções para os problemas da logística no Centro-Oeste. É possível solucionar esses gargalos num prazo de 10 anos?
 
Solucionar por completo nos próximos 10 anos infelizmente ainda não. Atualmente, o modal rodoviário é o nosso principal meio de escoamento da produção agropecuária. Ele continua deficitário, ainda precisamos dele, mas não podemos mais depender apenas deste modal. Precisamos da integração do transporte de cargas com as ferrovias e hidrovias. Somente esta integração fará com que nos tornemos mais competitivos. As rodovias são importantes, mas depender apenas delas gera transtornos não apenas para os caminhoneiros, mas também aos passageiros de veículos de passeio que correm riscos de vida no trânsito, em estradas esburacadas, mal conservadas e mal sinalizadas. Estamos juntos com o Movimento Pró-Logística, do qual a Famato é uma das entidades mantenedoras, apoiando o Projeto Centro-Oeste Competitivo. O estudo será apresentado na Bienal dos Negócios da Agricultura, que ocorrerá nos dias 8 e 9 de agosto, em Cuiabá. Esse diagnóstico é fruto do trabalho do Fórum de Entidades do Setor Produtivo do Centro-Oeste e será de suma importância para mostrar a atual dimensão dos problemas logísticos de Mato Grosso.
 
Caso não haja empenho total do governo federal e dos estados na questão da infraestrutura, a produção de alimentos pode entrar em colapso?
 
Não duvido disso. O aumento da demanda internacional por alimentos contribuirá diretamente para o crescimento da produção agropecuária brasileira. A população mundial em 2022, segundo a FAO (Food and Agriculture Organization), atingirá oito bilhões de habitantes. Destes, 55% estarão nas cidades. Além disso, o aumento da renda per capita nos países em desenvolvimento será de 37%, passando de US$ 6,9 mil por pessoa/ano para US$ 9,5 mil pessoa/ano em 2017. Diante deste cenário, a população mundial consumirá mais e, certamente, parte desses alimentos sairá de Mato Grosso. Veja só a responsabilidade que temos com o mundo e o que já aconteceu com a nossa produção atual: falta de armazéns, rodovias cada vez mais perigosas, cheia de veículos pesados e congestionamento nos principais portos para exportação. Por isso, não basta apenas os produtores fazerem a lição de casa dentro da porteira. O poder público também tem que agir para não entrarmos num colapso por conta da falta de infraestrutura adequada para produzirmos alimentos.
 
E da porteira para dentro, também há problemas? Quais são e como solucioná-los?
 
Infelizmente sim. A falta de mão de obra qualificada, a sucessão familiar no campo e os avanços na biotecnologia são os principais problemas que os produtores enfrentam da porteira para dentro. Estamos bastante preocupados com isso. Precisamos de gente qualificada para trabalhar no agronegócio e de despertar nos jovens o interesse pelo trabalho no campo. Para qualificar os produtores, o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-MT) desenvolve diversos cursos. Nossa meta é capacitar um milhão de pessoas até 2020.
 
Essa qualificação passa, inclusive, pelos filhos dos produtores rurais?
 
Também. E para ajudar os jovens, filhos de produtores rurais, a conhecerem as diversas oportunidades do agronegócio, a Famato e o Senar-MT desenvolveram o projeto Futuros Produtores do Brasil. Estamos levando esses jovens para conhecer fazendas consideradas referência em Mato Grosso. O projeto piloto vai até setembro e pretendemos abrir novas turmas para o próximo ano. E no que diz respeito à biotecnologia, ela traz oportunidades aos produtores na medida em que possibilita facilitar o manejo das culturas e melhorar a produtividade no campo. Mas nosso desafio nesta questão é conhecer de forma mais aprofundada os mecanismos que norteiam a cobrança dessas tecnologias, os chamados royalties. Vamos discutir sobre isso na Bienal da Agricultura, em agosto, em Cuiabá.
 
Entre os principais desafios da humanidade para as próximas décadas está a crescente demanda por alimentos. Como o setor rural tem se preparado para antecipação desse futuro?
 
Com muita tecnologia e aproveitamento de áreas de pastagem degradada. Neste último caso, estamos apostando em tecnologias como a integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF). Inclusive, a Famato está com uma forte parceria com a Embrapa Agrosilvipastoril, de Sinop, para pesquisar a viabilidade econômica dessa tecnologia. Sabemos que ela é sustentável do ponto de vista ambiental, mas, junto com uma parceria inédita com o Imea, a Embrapa avaliará a rentabilidade da iLPF aos produtores. O governo federal também criou o Plano ABC, que disponibiliza linhas de crédito para incentivar a iLPF. Penso que o setor rural está fazendo sua parte, mas o salto que Mato Grosso deu nos últimos 30 anos ocorreu muito mais por conta da iniciativa privada do que dos investimentos públicos. Precisamos que investimentos públicos sejam aplicados em infraestrutura, como pavimentação de estradas, construção de ferrovias, hidrovias, armazenagem e geração de energia e distribuição. Não adianta apenas investirmos em tecnologia e pesquisa dentro da porteira se não temos como escoar essa produção de forma econômica, competitiva e sustentável.
 
Ambientalistas afirmam que a complexidade vai marcar o futuro da agropecuária e elementos como soja, boi, pasto, milho e árvore terão que ser gerenciados integradamente. Hoje o setor produtivo rural já está nesse caminho?
 
Estamos apostando na integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF). Os sistemas integrados de produção, em virtude de suas características estruturais e suas potencialidades em termos de resultados econômicos, sociais e ambientais, podem se colocar como importante instrumento de transformação da atividade agropecuária na busca de um modo de produção agrícola ainda mais sustentável. Além disso, essa tecnologia pode ser adotada por qualquer tipo de produtor, independentemente de tamanho, região, produto ou qualquer outra característica estrutural. Isso já está acontecendo na região leste do Estado.
 
Não se produz alimentos sem levar em conta o meio ambiente. Em Mato Grosso já se produz mais, com sustentabilidade e sem abertura de novas áreas. Até quando isso será possível?
 
Acredito que isso será possível até quando tivermos uma infraestrutura logística compatível com a nossa produção. A produção está intrinsicamente ligada à logística. A extensão territorial de Mato Grosso corresponde a 90 milhões de hectares, dos quais 62% são preservados sob a forma de reservas indígenas, unidades de conservação, reservas legais e Áreas de Preservação Permanentes (APPs). É um percentual significativo quando comparado a outros países. Somos os primeiros no ranking nacional de produção de soja, milho segunda safra, algodão, girassol e criação de bovinos. Isso prova o quão importante é aliar a produção com a preservação. O novo Código Florestal veio com esta finalidade e trouxe segurança jurídica aos produtores e à sociedade em geral. Temos condições de continuar produzindo e preservando como fazemos há muitos anos.
 
Além disso, ainda há questões tributárias...
 
A questão tributária é outro gargalo para o setor produtivo. A Famato e o Imea encomendaram à Fundação Getúlio Vargas (FGV) um estudo para avaliar a incidência tributária sobre o agronegócio de Mato Grosso. Este é um estudo pioneiro no Estado e um importante trabalho para nortear as políticas tributárias de Mato Grosso. Como exemplo, cito o Fethab que, apesar de ter sido criado principalmente para atender as demandas de logísticas e habitação, hoje está sendo desvirtuado.
 
A piscicultura tem se mostrado eficiente na rápida produção de proteína animal. Por que essa modalidade de produção ainda avança com timidez em Mato Grosso?
 
Acredito que ainda falta maior união entre os piscicultores. Notamos isso na cadeia leiteira, quando realizamos o primeiro diagnóstico da produção de leite em Mato Grosso. Para contornar esta situação, a Famato apoiou a criação da Associação dos Criadores de Leite (Aproleite), assim como fez com a Aprosoja, Acrimat e Amapa. Em 2013, junto com o Imea, a Famato fará um diagnóstico da aquicultura em Mato Grosso, pois acreditamos que, assim como a cadeia leiteira, o Estado tem grande potencial para desenvolver a produção de peixes.
 
Como o senhor projeta a agropecuária de Mato Grosso nas próximas décadas, levando-se em consideração não apenas a produção de grãos e carnes?
 
Na próxima década, a produção de alimentos em Mato Grosso deve atingir 71,6 milhões de toneladas e isso representa um aumento de 76% se comparado às estimativas para 2013, quando a produção deve ser de 40,7 milhões de toneladas. Verificamos isso no estudo AgroMT Outlook 2022, divulgado no ano passado pelo Imea, que apresentou as projeções para o período 2012/2022. A soja deve ter um crescimento de 62%, saltando de 24 milhões de toneladas para 39 milhões de toneladas. Com este resultado, Mato Grosso se consolidará como maior produtor nacional da oleaginosa, responsável por 40% da produção brasileira.
 
Mas o grande destaque ficará para o milho...
 
A produção deve crescer 106% na próxima década, passando de 13 milhões de toneladas em 2013 para 28,6 milhões de toneladas em 2022. Isto representará 36% da produção brasileira. A produção de carnes bovina, suína e de aves deve crescer 54% até 2022, passando de 2 milhões de toneladas em 2013 para 3 milhões.
 
O interessante na pecuária é que, apesar da queda de área, a lotação por hectare deve aumentar 26%...
 
A diminuição das pastagens não afetará a produção, que será suprida pelo uso de novos sistemas intensivos de produção. Estes dados mostram os desafios que ainda temos para suprir a demanda por alimentos.
 
Para que as projeções positivas se concretizem é fundamental a união de propósitos de todas as entidades representativas do agronegócio. Qual a parcela de responsabilidade da Famato nesse cenário?
 
Nossa responsabilidade é continuar na liderança e representatividade da agricultura e pecuária de Mato Grosso. Vamos continuar trabalhando na representação dos produtores rurais do Estado nos projetos e leis criados para o setor, tanto na esfera estadual como federal. Politicamente também estamos empenhados em fazer com que nossos governantes enxerguem a importância do agronegócio para Mato Grosso e para o Brasil. O cenário é brilhante, mas é preciso dar mais importância ao agronegócio.
 
 
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