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Notícias

30/12/2014

Lições dos campeões do campo

​Ao aliar inovação técnica com o conhecimento acumulado ao longo de anos na atividade, produtores colhem resultados acima da média e mostram como é possível ampliar rendimentos no campo. Campeãs em produtividade ou qualidade, quatro propriedades do Estado se sobressaem por uma combinação de ingredientes que, somados, resultam em projeções otimistas para o próximo ano.

Adoção de tecnologia, investimento no bem-estar animal e das pessoas e a busca por atualização no setor faz com que sacas de soja e milho e litros de leite se multipliquem nas propriedades das famílias Strobel, Baseggio e Giliotto. Já na Cabanha da Maya, o trabalho é voltado para melhorar a qualidade do produto que vai ao prato do consumidor.
 
Em comum, as propriedades retratadas nesta reportagem não têm apenas excelência no cuidado com culturas e criações, mas também a herança do conhecimento dos pais aliada à juventude dos filhos, que assumem o comando dos negócios ou ajudam na gestão.

— Os mais novos estão ligados às tecnologias e, às vezes, os pais à técnica um pouco rudimentar. Para os jovens, é mais fácil adaptar o conhecimento do pai para ter ganho maior — afirma Daniela Rocha, pesquisadora da área agrícola da Fundação Getulio Vargas.

Jaime Ries, assistente técnico em Sistemas de Produção Animal da Emater, diz que, para atingir bons resultados, o produtor deve investir na gestão do empreendimento, com treinamento da mão de obra e assessoramento técnico. No caso da pecuária, conhecer as exigências nutricionais das diferentes raças e fornecer a cada uma delas a alimentação adequada é condição indispensável para o sucesso na produção. Já na lavoura, o gerente técnico estadual da Emater, Dulphe Pinheiro Machado Neto, afirma que a primeira preocupação deve ser com o manejo adequado do solo.
 
Para desafiar o agricultor a fazer com que a produção da principal cultura de verão do Rio Grande do Sul renda sempre mais, o Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb) realiza a cada ano o Desafio Nacional de Máxima Produtividade da Safra. A competição já teve gaúchos como campeões nacionais na categoria irrigada — mas em áreas de sequeiro o desempenho dos produtores do Estado está muito condicionado ao clima.

— O Rio Grande do Sul depende demais da chuva. Quando a distribuição é melhor, a produtividade cresce. Se continuar como está agora, a tendência é de bom rendimento — diz Ricardo Balardin, sócio-fundador do Cesb.
 

Irrigação como divisor de águas

Quando a água chegou à lavoura por meio de pivôs de irrigação, a Agropecuária Capané viu o negócio prosperar até nos períodos de seca. A média de cem sacas de milho por hectare em área de sequeiro saltou para 229 quando irrigada e quase triplicou nos 10 hectares com tratamento diferenciado para manejo de alta produtividade, onde foram colhidas 275 sacas por hectare. A propriedade dos Strobel, em Cachoeira do Sul, teve a maior média de produtividade em milho no Clube da Irrigação (criado pela Farsul, une empresas e produtores com o objetivo de alcançar até 300 sacas de milho e 120 sacas de soja por hectare).

— O divisor de águas foi a irrigação. Em 2007, começamos a colocar pivôs e, a partir daí, conseguimos produções maiores.

O custo de R$ 6 mil por hectare foi pago em quatro anos. É o melhor investimento que se pode fazer. O retorno é rápido e garante a produção — pondera o engenheiro agrônomo Udo Strobel, 37 anos, filho do agricultor Erico.

Com 69 anos, Erico participa de todas as decisões sobre o negócio. A filha Priscila, 43 anos, é administradora e integra o time de frente da Agropecuária Capané. Mas o segredo para ter êxito no milho em uma cidade de baixa altitude, de menos de cem metros em relação ao nível do mar, não fica apenas na irrigação. Correção de área por agricultura de precisão, emprego de genética de ponta nas sementes e máquinas de última geração também contribuem para os bons resultados alcançados.

— Estamos nos igualando ao Planalto Médio. É mais fácil produzir 220 sacas lá do que aqui — diz o engenheiro agrônomo.

Para esta safra, Udo está otimista com o rendimento dos 300 hectares de milho: acredita que colherá cerca de 240 sacas por hectare. Na soja, que abrange 80% da lavoura, a colheita também é acima da média: 54 sacas entre irrigado e sequeiro e de 75 a 80 sacas na área irrigada.

FICHA TÉCNICA:
Agropecuária Capané
Localização: Cachoeira do Sul
Área: 2,9 mil hectares
Cultura: milho, soja e trigo
Produção: 229 sacas por hectare, em área irrigada
Destaque em 2014: maior média de produtividade em milho entre as áreas do Clube da Irrigação, com 275 sacas por hectare (colhidas em 10 hectares)

Fontes: Engenheiros agrônomos Udo Strobel, da Agropecuária Capané, e Brian Santos Trindade, responsável técnico do Clube de Irrigação
 
 
Controle do solo e das pragas para render mais

Já que controlar o tempo e garantir chuva na medida certa para a lavoura não dependem do produtor, Vitor Baseggio, 25 anos, aposta em outros mecanismos para alcançar 108 sacas de soja por hectare em área de sequeiro — marca registrada em 2,5 hectares da fazenda em Erechim, no norte do Rio Grande do Sul:

— Em resumo, é correção de solo, adubação e novas tecnologias.

O volume obtido fez da propriedade a campeã estadual do Desafio Nacional de Máxima Produtividade da Safra 2013/2014 do Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb). No restante da lavoura, a família colheu 65 sacas de soja por hectare — a média nacional, de acordo com o Cesb, é de 50 sacas por hectare. Mas nem sempre foi assim. Há cinco anos, a colheita rendia 45 sacas. Para virar o jogo, a família decidiu apostar na biotecnologia e em produtos mais resistentes a lagartas, o que ajudou a elevar a produtividade.

Técnico agrícola, Vitor conta que a área com plantio especial foi ampliada para 15 dos 730 hectares da propriedade no desafio da safra 2014/2015. A adubação ajuda na meta de chegar a ambiciosas 150 sacas por hectare, mas o resultado dependerá da quantidade de chuva. No pedaço de terra privilegiado, onde há mais nutrientes para as plantas se desenvolverem, o preparo envolve uso de bastante adubo foliar e tratamentos em intervalos de tempo mais curtos, com monitoramento de pragas.

Com apenas um funcionário, a fazenda funciona basicamente nas mãos de Vitor e do pai, Roberto Baseggio, 49 anos. Os dois irmãos, o universitário Ricardo, 20 anos, e o empresário Gustavo, 27 anos, ajudam mais na época da safra. Natural de São José do Ouro, onde também tem propriedade, a família se divide entre o campo e a cidade. Vitor mora na fazenda localizada no limite de Erechim com Getúlio Vargas, adquirida há sete anos.

— Fazemos tudo. É como diz o ditado: é o olho do dono que engorda o gado — comenta Vitor.

FICHA TÉCNICA:
Fazenda Baseggio
Localização: Erechim
Área: 730 hectares
Cultura: soja, milho, trigo, feijão e aveia
Produção: média de 65 sacas de soja por hectare, em área de sequeiro
Destaque em 2014: campeã estadual do Desafio Nacional de Máxima Produtividade da Safra 2013/2014 do Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb), com 108 sacas por hectare (colhida em 2,5 hectares da lavoura)
 
 
Dicas dos especialistas em grãos

Irrigação: por meio dela, o produtor pode diminuir os danos de frequentes estiagens e os chamados "veranicos", que causam grandes prejuízos econômicos e reduzem o potencial de produtividade das culturas.

Fertilidade do solo: por meio da adubação e calagem chega-se a teores considerados ideais de macro e micro nutrientes para um bom desenvolvimento.

Agricultura de precisão: proporciona a melhoria de fertilidade do solo. Essa ferramenta de gerenciamento leva em consideração a variabilidade existente no solo e possibilita que o manejo de cada hectare possa ser feito de forma diferente. Os sensores, tanto de solo quanto de plantas, melhoram a aplicação de insumos, distribuindo-os de forma eficiente no tempo e no local correto. É importante verificar a qualidade dos equipamentos, precisão e regulagem durante a aplicação de insumos para evitar erros na aplicação.

Manejo: o produtor também deve seguir a recomendação de fazer rotação de culturas e a manutenção da palhada, no plantio direto, para reduzir riscos de erosão, de perdas de solo e de nutrientes.

Implementos agrícolas: aplicar inseticidas e herbicidas na quantidade e no momento correto, com rotação de mecanismos de ação tanto em pré-semeadura (dessecação antecipada) quanto no período pós-colheita.

Genética: o cultivo de sementes híbridas adequadas, com genética para alta produção, amplia o resultado e torna o produto resistente às principais pragas e doenças de cada cultura.

Semeadura: principalmente na cultura do milho, uma perfeita distribuição de plantas na área favorece a interceptação da radiação solar, melhorando o aproveitamento de água e nutrientes. Também deve-se respeitar o limite de velocidade de semeadura de 5 km/h para uma excelente distribuição de sementes, no caso do milho, e de 5 km/h a 8 km/h, para a soja.

Fontes: Engenheiros agrônomos Udo Strobel, da Agropecuária Capané, e Brian Santos Trindade, responsável técnico do Clube de Irrigação
 
 
Referência no gado leiteiro
 
Em 2014, Guilherme Giliotto, 25 anos, foi banhado de leite por três vezes. O ato simbólico reflete os resultados em concursos nos quais a família, de Serafina Corrêa, foi vencedora. A propriedade dos Giliotto exibe produção de 130 mil litros mensais, vendidos à Cooperativa de Suinocultores de Encantado (Cosuel).

Na propriedade de 45 hectares, a solução encontrada por Guilherme em conjunto com o pai, Lidenor, 70 anos, e os irmãos Paulo, 35 anos, e Rogério, 45 anos, foi investir no conforto dos animais, adotando o sistema free-stall (galpão com camas e baias livres), há quase cinco anos. Isso foi fundamental para aumentar em 30% a produção.

— Visitamos outras fazendas e vimos esse sistema. Por ter pouca área, precisávamos optar por um investimento para confinar o gado. Era o que podíamos fazer — explica Guilherme.

A estrutura confortável para 120 vacas em ordenha custou cerca de R$ 800 mil, incluindo colchões suecos. O resultado são 35 litros por dia, por animal. Uma das vacas chegou à marca de 71,9 litros no concurso da raça na Expointer.

— Se tiver gado bom e serviço eficiente, tem retorno. Nossa projeção é de que o negócio seja pago em oito anos — diz Guilherme.

Atualmente, Guilherme é quem gerencia tudo. Rogério se dedica ao plantio e à silagem de milho, utilizada na alimentação das vacas, junto com feno. Paulo acompanha a ordenha e a nova aposta da propriedade: a venda de embriões.

— O conforto do animal está em primeiro lugar, ou ele não responde como poderia. E há o bem-estar de todos. Acabou o tempo em que o funcionário trabalhava 15 horas por dia. Se estiver bem, ele trabalha melhor — diz o caçula, que gerencia cinco funcionários.

FICHA TÉCNICA:
Propriedade Giliotto
Localização: Serafina Corrêa
Área: 45 hectares
Criação: 230 vacas holandesas, sendo 120 em ordenha
Produção: média de 35 litros/dia por animal (cerca de 130 mil litros/mês)
Destaque em 2014: vacas campeãs de concursos da 5º Festleite, 37ª Expoleite/10ª Fenasul e 37ª Expointer
 
 
Dicas de especialistas

Confinamento: uma das vantagens do sistema free-stall é que o animal fica mais parado, sem necessidade de caminhar muito e em temperatura agradável. Além disso, o galpão de ordenha pode ser erguido em propriedades pequenas.

Conforto: o bem-estar do animal contribui para melhores índices produtivos, à sanidade do rebanho e à qualidade dos produtos. Na propriedade dos Giliotto, as 132 camas, feitas de colchões da Suécia (R$ 1 mil cada) e cobertas de areia, fazem diferença. Os animais também escutam música o dia todo.

Alimentação: na pastagem, forrageiras de qualidade, implantadas e manejadas adequadamente, aumentam a produtividade e o retorno econômico. Na Propriedade Giliotto, a alimentação no cocho é baseada em silagem de milho (produção própria) - além de 30 quilos por dia - e feno (comprado).

Fonte: Jaime Ries, assistente técnico em Sistemas de Produção Animal da Emater, e produtor Guilherme Giliotto
 
 
Equipe que faz a diferença
 
O touro Maya Catanduva 300 Impávido Eleutério arrebatou campeonatos de quatro das cinco exposições de maior destaque dentro da raça angus no ano que passou. O feito é atribuído ao carinho com que a Cabanha da Maya, em Bagé, de propriedade de Zuleika Torrealba, trata os animais.

A raça teve o maior número de inscritos na 37ª Expointer e, por isso, caracteriza os bovinos de corte que tiveram destaque em 2014. A conquista de grande campeão macho angus da Expointer, em parceria com a Cabanha Catanduva, coroou o trabalho realizado em Bagé. Vinícius da Silva Diniz, médico veterinário e administrador da fazenda, atribui o sucesso a quatro fatores:

— Comprometimento, amor, dedicação e união da equipe, que veste a camisa e dedica carinho aos animais. Não adianta genética e comida, se não há boa equipe.

A cabanha usa pais e mães nascidos no Brasil, investe em genética de ponta, bem-estar animal e mão de obra qualificada. Produzir parte da ração na fazenda é outra técnica adotada.

— Conseguimos atender as exigências nutricionais e permitimos que o animal mostre todo o potencial genético de desenvolvimento e produção. Com concentrados comerciais, não conseguíamos isso — afirma Diniz.

FICHA TÉCNICA:
Cabanha da Maya
Localização: Bagé
Área: 1,2 mil hectares
Criação: gado de leite (holandês e jersey), gado de corte (250 angus), ovelhas, cabras e cavalo crioulo.
Destaque em 2014: Maya Catanduva 300 Impávido Eleutério conquistou os campeonatos da raça angus na Expointer, Nacional (Expolondrina), Avaré e Fenasul

Dicas de especialistas

Genética: leve em conta a tolerância ao calor. A genética de animais com pelagem curta e fina favorece a saúde e a produtividade. No caso da Cabanha da Maya, o uso de pais e mães nascidos no Brasil teria resultado em animais adaptados ao clima.

Alimentação: depender só de campo nativo significa limitar a produção. E é importante ter reservas para o inverno. Isso garante desempenho crescente dos animais. Ter insumos para a ração produzidos na propriedade possibilita um maior controle de qualidade.

Seleção de animais: foque em objetivos específicos, como melhorar o tamanho do animal, a fertilidade ou o marmoreio da carne. O uso de tecnologia, como ultrassonografia, também é importante.

Fonte: Fernando Velloso, inspetor técnico da Associação Brasileira de Angus (ABA), e Vinícius Diniz, administrador da Cabanha da Maya
 
Autor:
Letícia Costa

Fonte: