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23/11/2015

Resistência: Manejo adequado é a chave para sustentabilidade da atividade agrícola

​Para superar o desafio de obter alimentos, fibras e agroenergia para atender as demandas crescentes do mundo moderno, os programas de melhoramento genético desenvolveram cultivares altamente produtivas. O problema é que, além do ser humano, outras espécies tiraram vantagem dessa situação, tais como insetos, ácaros, fungos e plantas invasoras. A ampla oferta de alimento e condições propícias ao seu desenvolvimento fizeram com que esses organismos se multiplicassem e atingissem status de pragas. Isso aumentou o custo de produção e obrigou, muitas vezes, o produtor a buscar novas áreas para cultivo. “O estado de São Paulo era um grande produtor de algodão, mas a entrada e os níveis críticos da população do bicudo-do-algodoeiro forçaram o produtor a cultivar em outras regiões do Brasil”, comenta Luís Carlos Ribeiro, gerente técnico e de regulamentação estadual da Associação Nacional de Defesa Vegetal (ANDEF).
 
Situações como esta levaram governo e setor privado a investir pesadamente no desenvolvimento de novas tecnologias e processos para combater as pragas, tais como cultivares com propriedades de resistência, métodos culturais, agroquímicos, organismos de controle biológico e modificações no sistema de produção, além de medidas legislativas como o vazio sanitário. Mas isso resolve o problema apenas temporariamente. “As pragas são, por definição, espécies dotadas de alta capacidade de reprodução e de adaptação. Isso significa que, na população, sempre há uma pequena proporção de indivíduos que vai sobreviver diante de um novo método de controle e que, mantida a pressão de seleção, os descendentes desses poucos indivíduos vão se reproduzir mais abundantemente e a população se tornará resistente”, explica o professor Edivaldo Velini, da Universidade Estadual Paulista (UNESP). “A resistência é a norma, não a exceção. O que nós podemos fazer é adotar as práticas adequadas para retardar ao máximo essa resistência”, complementa Velini.
 
O manejo da resistência a métodos de controle é um assunto multidisciplinar e que envolve desde os conhecimentos sobre a biologia básica da praga, sobre os modos de ação dos métodos de controle, as práticas de cultivo e o conhecimento a legislação vigente. “Naturalmente, quando se fala em resistência, a primeira ideia que vem à cabeça é o controle químico, mas a resistência acontece com qualquer método de controle”, explica Fábio Kagi, gerente de Educação e Treinamento da ANDEF.
 
Para o consultor da Fundação MT, Fabiano Siqueri, diversos fatores contribuem para acelerar o surgimento de linhagens resistentes de pragas (Ver Box). “Um fator que agrava o cenário é a crença, por parte dos produtores, de que a fonte de tecnologias é infinita. Isso está muito longe de ser verdade. A cada ano que passa, torna-se mais improvável a descoberta de novas tecnologias e, para piorar, o tempo para obter um registro torna-se cada vez mais longo”, explica o consultor. “Portanto, toda e qualquer tecnologia existente deve ser protegida, sob o risco de não termos ferramentas para manter os níveis de produtividade atuais”, complementa Siqueri.
 
No Brasil, três grupos de pesquisadores se organizaram para criar Comitês de Ação à Resistência de insetos, fungos e plantas invasoras a métodos de controle. Eles promovem ações de pesquisa, extensão e comunicação para promover a adoção de boas práticas agrícolas e, assim, prolongam a susceptibilidade de pragas a métodos de controle. Para 2016, os Comitês planejam realizar um projeto de pesquisa em parceria com a Prof. Sílvia Helena Miranda, da Universidade de São Paulo, sobre os impactos econômicos que a resistência tem para o país.
 
Segundo a prof. Sílvia, o produtor precisa ser esclarecido sobre perdas no longo prazo associadas à resistência. “Elas incluem, entre outras, o aumento do custo de produção, perdas em produtividade, realocação do uso da terra, custos ambientais e sociais e redução de acesso a mercados”, explica a professora. Segundo levantamento feito pela FAO em 1996, já havia mais de 700 espécies de pragas agrícolas para as quais a resistência já havia sido documentada. Somente nos Estados Unidos, estima-se que o custo anual da resistência gira em torno de 10 bilhões de dólares. “Estudos realizados nos EUA demonstraram que o benefício do uso de agroquímicos (traduzido como perdas evitadas) é maior do que o impacto percebido pela sociedade (traduzido como riscos à saúde humana e redução da qualidade ambiental”, complementa Miranda.
 
Uma agenda com os encaminhamentos e orientações advindos do evento será publicada pelos Comitês de Ação à Resistência. “É preciso planejar e sair da inércia, todavia mais diante de problemas provocados pelo próprio ser humano, que são os mais difíceis de resolver. Mudar o comportamento do produtor e, consequentemente, o manejo empregado é o desafio que se apresenta”, finaliza o prof. Velini.
 
O workshop foi uma realização dos Comitês Brasileiros de Ação à Resistência a Inseticidas (IRAC-BR), Fungicidas (FRAC-BR) e Herbicidas (HRAC-BR), com apoio da Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef) e do Sindiveg, e com organização da Agropec.
 
 
 
Confira algumas recomendações para aumentar a eficácia do manejo de pragas e reduzir a chance de surgimento de pragas resistentes:
 
A. Controle químico

1. Aplicar o volume de calda recomendado pelo responsável técnica. Se aplicada em volume inferior ao recomendado, o produto não atingirá toda a planta, favorecendo a sobrevivência da praga e causando falha no controle. Se for aplicada em volume acima do indicado, poderá provocar fitotoxicidade e aumento na pressão de seleção.

2. Realizar a aplicação no horário adequado. Se a aplicação for feita fora do horário, a degradação do produto pode ser acelerada (sob alta insolação, por exemplo), resultando em falha do controle.

3. Utilizar os adjuvantes seguindo recomendações técnicas. Usados adequadamente, os adjuvantes contribuem para maior aderência e penetração do produto na planta.

4. Realizar a aplicação sob condições climáticas adequadas. Se a aplicação for feita sob chuva ou imediatamente antes da chuva, o produto não terá tempo suficiente para aderir ou penetrar na planta, levando a falha no controle.

5. Rotação de modos de ação. A aplicação sucessiva de produtos com mesmo modo de ação favorece o surgimento de populações resistentes.

6. Preparar a calda segundo recomendações do responsável técnico. O uso de subdoses favorece a seleção de populações resistentes

7. Realizar o monitoramento de pragas. Aplicações calendarizadas podem resultar desnecessárias e aumentar a pressão de seleção. Além disso, o produto pode estar sendo aplicado quando a praga já não está suscetível ao produto.
 
B. Tecnologia da aplicação

1. Capacitar continuamente os aplicadores. Aplicadores despreparados podem cometer falhas ao utilizar equipamentos, principalmente aqueles mais modernos.

2. Regular periodicamente os equipamentos de aplicação. Equipamentos desregulados podem comprometer a qualidade da aplicação, resultando em falhas no controle, aumento na pressão de seleção de resistentes e fitotoxicidade.
 
C. Manejo da área
1. Fazer rotação de culturas. O plantio sucessivo da mesma espécie de planta na área propicia condições para o crescimento populacional da praga e acelera o surgimento da resistência.

2. Cumprir o vazio sanitário. O vazio sanitário funciona como um período em que a praga não vai encontrar sua planta hospedeira e, assim, leva a uma diminuição na população.
 
D. Cultivares geneticamente modificadas
1. Seguir recomendações para áreas de refúgio. As áreas de refúgio servem para viabilizar a sobrevivência de indivíduos suscetíveis na população. Quando toda a área é plantada com a cultivar GM, a pressão de seleção aumenta e isso acelera o surgimento de linhagens resistentes.

 

Fonte: Agropec

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