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Estratégias para Diminuir a Presença de Milho Tiguera no Campo

02
set
2019

No atual cenário agrícola, a sucessão entre a cultura da soja e de milho se torna cada vez mais consistente nas diversas regiões agrícolas brasileiras. Em decorrência da sucessão milho/soja com a mesma biotecnologia tolerante à molécula de glifosato, a presença de milho voluntário tem aumentado na cultura da soja e se tornado um desafio no dia a dia dos produtores. Veja a seguir algumas estratégias para diminuir a presença de milho voluntário no campo.

Estratégias de controle

Uma das melhores estratégias para diminuir a presença de milho tiguera no campo é minimizar as perdas de colheita através da correta regulagem da colheitadeira, evitando ao máximo a perda de grãos e espigas. Estes cuidados contribuem para a não germinação dos grãos de milho que se transformariam em plantas voluntárias e competiriam com a soja.

Todavia, se as perdas na colheita acontecerem, é necessária a adoção de uma medida de controle químico, como a intervenção com herbicida de mecanismos de ação diferentes do glifosato – que, neste caso, são os graminicidas.

Desafios

A grande dificuldade em controlar plantas tigueras de milho é que as mesmas apresentam diferentes fluxos de germinação, ou seja, a frequência e intensidade de emergência variam de acordo com as condições climáticas de cada região, do sistema de produção, da qualidade de manejo, condução da lavoura, entre outros.


Imagem 1. Plantas voluntárias de milho em meio a cultura da soja.

De acordo com um trabalho realizado pela Fundação ABC (2012), sobre o potencial de dano da matocompetição de milho com o gene Roundup Ready™ Milho 2, em lavouras com cultivares de soja tolerantes ao herbicida glifosato pode ocorrer redução na produtividade da cultura de acordo com o número de plantas de milho voluntárias por metro quadrado (imagem 1).

Os resultados deste estudo apontaram que a interferência de 1 planta m2, 2 plantas m2 e 4 plantas m2, representou perdas em produtividade na ordem de 29,8%, 44,5% e 64,4%, respectivamente, em comparação à testemunha (gráfico 1).


Gráfico 1. Potencial de dano - plantas voluntárias de híbridos com gene Roundup Ready™ Milho 2 em lavouras de soja. Fonte: Fundação ABC

As perdas em produtividade são relevantes e, claramente, refletem em impacto econômico para a propriedade. Além disso, a magnitude dos danos pode ser ainda maior, já que as plantas voluntárias servem como hospedeiras de insetos-praga e patógenos causadores de doenças que podem levar a quebra de resistência das biotecnologias no controle de insetos-alvo, multiplicação de insetos-vetores e doenças.

No caso das plantas voluntárias de milho tolerantes ao glifosato também serem geneticamente modificadas para resistir ao ataque de insetos – plantas Bt (Bacillus thuringiensis) –, as mesmas podem exercer elevada pressão de seleção sobre as populações de insetos-praga que são alvo do controle. Deste modo, a expressão contínua das toxinas inseticidas ao longo do período de desenvolvimento pode ocasionar resistência às tecnologias Bt.

As plantas tigueras também são hospedeiras de patógenos que vem causando grandes perdas à cultura do milho, como por exemplo, os mollicutes causadores de Enfezamento na cultura do milho.

Manejo químico

Dessecação pré-plantio: logo após o início das primeiras chuvas, o uso de glifosato é primordial para controle de uma gama de plantas daninhas que não apresentam resistência ao herbicida, contudo, sabemos que a maioria das áreas apresentam biótipos resistentes a essa molécula, como por exemplo, a Digitaria insularisConyza sp. e Lolium multiflorum.

Além dessas plantas daninhas, também temos híbridos de milho tolerantes ao glifosato, o que torna necessário o uso de herbicidas específicos para controle das invasoras com resistência à molécula de glyphosate, como é o caso dos herbicidas inibidores de auxinas (Conyza sp.) e herbicidas/graminicidas a base de ACCase e, em alguns casos, o uso de produtos de contato (Carfentrazona etílica, Flumioxazina, Paraquate, etc.).

Entretanto, no Brasil, a legislação proíbe misturas de tanque, o que dificulta a estratégia para aumentar o espectro de ação dos herbicidas.

Outro cuidado que se deve ter é o antagonismo entre misturas (inibição de um dos mecanismos de ação), principalmente de latifolicidas com graminicidas.

Pós-emergente: quanto ao controle químico de plantas voluntárias, em pós-emergência de milho tolerante ao glifosato na cultura da soja com a mesma tecnologia, o manejo de controle é realizado a base de herbicidas/graminicidas inibidores do sítio de ação ACCase, que são herbicidas inibidores da síntese de ácidos graxos que atuam paralisando o crescimento e desenvolvimento celular. Entretanto, esta estratégia, muitas vezes, é ineficiente dependendo do estádio vegetativo em que se encontra a planta voluntária.

Além do mais, é necessário tomar cuidado com questões como carryover, que são resíduos de herbicidas que podem comprometer a cultura sucessora; e o uso de subdosagem ou superdosagens de graminicidas para controlar o milho, pois esta última pode aumentar a pressão de outras plantas invasoras presentes na lavoura.

As principais moléculas do grupo ACCase estão presentes no quadro 1, com base em informações oficiais do Ministério da Agricultura, para controle de milho tolerante ao glifosato na cultura da soja.

Grupo Nome Comercial Formulação Ingrediente Ativo Dose Comercial (L.ha-1) Solubilidade em Água (ppm)
Ariloxi - Fenoxi propionatos (FOPs) Verdict® R EC Haloxifope-P-metílico 0,4 a 0,5 9,3
Verdict® Max EC Haloxifope-P-metílico 0,07 a 0,29 9,3
- EW Fluazifope-P-butílico 0,5 a 0,75 1,1
- EC Quizalofope-P-tefurílico 0,3 a 0,4 0,4
Oxima Ciclohexanodionas (DIMS) - EC Clethodim 0,35 a 0,45 55520
- EC Tepraloxydim 0,375 a 0,5 430
- DC Setoxidim 1,25 257
- DC Setoxidim 2,0 257

EC = concentrado emulsionável / EW = Emulsão óleo em água / DC = concentrado dispersível
Quadro 1. Principais moléculas do grupo ACCase

Eficiência do controle X estádio fenológico da planta de milho voluntária

A eficiência do controle químico com o uso de graminicidas também está correlacionada com o estádio fenológico da planta voluntária (imagem 2).


Imagem 2. Eficiência do controle químico

O controle químico é uma ferramenta efetiva e eficaz nos primeiros estádios vegetativos (2 a 3 folhas), sendo que tanto graminicidas do grupo Ariloxi-Fenoxi Propionatos (FOPs) e Oxima Ciclohexanodionas (DIMs) apresentam eficiência semelhante no controle até o estádio vegetativo.

Gradualmente, quanto mais avançados os estádios, mais difícil o controle das plantas voluntárias de milho e, consequentemente, maior dose e aumento de custos. Neste caso, os graminicidas FOPs apresentam maior eficiência em nível de campo, em relação aos DIMs.

Normalmente, estão sendo necessárias 2 aplicações de graminicidas seletivos em pós-emergência, havendo registros a campo de 3 até 4 aplicações para o controle. Isto tudo dependente do fluxo de germinação das espigas remanescentes no solo.

Importante destacar que a dose comercial tem suas variações e sempre deve ser determinada de acordo com o estádio do alvo biológico que se deseja controlar.

Também é necessário buscar por eficiência na aplicação, pois de nada adianta ter os melhores produtos, melhores equipamentos se não estivermos atentos para parâmetros básicos como: condições climáticas, tipo de ponta, cobertura de gotas, pressão, etc. Além dos parâmetros citados, na aplicação de graminicidas, é importante sempre fazer uso de adjuvantes recomendados pelas empresas fabricantes.

Em suma, o sistema de sucessão soja e milho com adoção da mesma biotecnologia tolerante ao glifosato é complexo, preocupante e desafiador. A agricultura cada vez mais nos exige dedicação, conhecimento dos cenários e dinâmicas de manejo. É preciso estar preparado!

por Adilson Policena dos Santos Engenheiro Agrônomo pela UFRGS (2006). Possui experiência em condução de ensaios a campo em parceria com universidades e fundações de pesquisa para as culturas do milho, sorgo e soja, geração e desenvolvimento de informações técnicas e treinamentos e palestras. Atualmente é Supervisor de Serviços Técnicos para as marcas de sementes da Corteva Agriscience, atuando no estado de Goiás.

Publicado em: 16/05/2017
Atualizado em: 02/09/2019

 

Referências
AGROFIT. Sistemas de agrotóxicos fitossanitários. Acesso em 20 de maio de 2019.
CONAB. Safra brasileira de grãos. Acesso em: 06 maio de 2019.
PENCKOWSKI, L. H. Aspectos importantes no manejo de milho RR voluntário.Acesso em: 20 maio de 2019.​

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  • Comentários (2)

Adriana Lopes

8/8/2017 19:31:23
O uso do gramicidas inibidores da síntese de ácido graxo que atua paralisando o crescimento e desenvolvimento celular no pós emergencial não poderia levar a uma maior resistência da planta em relação também aos gramicidas? Teria alguma prática de rotação de culturas ou manejo do solo que poderia auxiliar o produtor nesse problema? E que o custo fosse menor?
Adilson Policena
15/8/2017 13:36:25
Prezada Adriana, primeiramente obrigado pelo questionamento. Quanto as estratégias para diminuir a presença de milho tiguera no campo e ao uso de gramínicidas inibidores da sintese de ácidos graxos em pós emergência, também conhecidos como inibidores de ACCase (Acetil coa carboxilase) que é uma das enzimas responsáveis pela síntese de ácidos graxos na fase inicial, estes ácidos graxos são constituidos de lípidios que ocupam a membrana das células e organelas, sendo que estes herbicidas deste grupo são reversíveis e não competitivos da enzima ACCase (Vidal & Merotto, 2001). Assim sendo, podem apresentar resistência cruzada. O grande entrave está na adoção de tecnologias R (tolerante a glyphosate) a nível de campo associada ao uso sucessivo e repetido do mesmo mecanismo de ação. Certamente essas práticas acabam excercendo uma pressão de seleção de plantas daninhas resistentes, e futuramente é possível que ocorra resistência ao uso de inibidores da síntese de herbicidas a base de graxos, mesmo tendo resistência cruzada. O que determina isto, é a atitude tomada à nível de campo. Quanto a segunda parte de sua pergunta, acredito que o primeiro passo é o equíbrio entre adoção de tecnologias no campo, isto é fundamental e lembro que é apenas uma das ferramentas para nos auxiliar. Não podemos esquecer das Boas Práticas Agrônomicas como: a rotação de culturas, plantio direto e redução de perdas na colheita, afinal, o milho tiguera no campo é em grande parte resultado de perdas de grãos e espigas no momento de colheita. Atualmente os herbicidas do Grupo ACCase são os mais efetivos em milho tiguera, também há outros herbicidas de ação de contato, entretanto estes têm baixa eficiência no controle de milho voluntário devido fluxo de germinação do milho a campo, ou seja, a frequência e intensidade de emergência irão variar de acordo com as condições climáticas de cada região. Por fim, o menor custo começa na adoção das boas práticas agrônomicas para que o equilíbrio do sistema seja adquirido, já que estamos há anos sem novos mecanismos de ação e cada ano enfrentamos maior resistência aos herbicidas a nível de campo. Att, Adilson.
     
 

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